sexta-feira, 3 de abril de 2015

A LIBERDADE E A CENSURA - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA






No final dos anos setenta, em época em que se vivia plena diarreia política, e sobrepunha-se o ódio, à razão, acompanhei meu pai à tipografia de pequeno periódico, cujo director era amigo de longa data.

A conversa, caiu, como não podia deixar de ser, na política, e descambou para liberdade e censura.

Foi então que o Vilarandelo de Morais, homem modesto, mas excelente orador, capaz de animar uma assembleia de homens cultos, declarou, enquanto mostrava a pequena tipografia:

- “ Tinha mais tranquilidade outrora, quando havia sensores e tinha que levar as provas à censura. Cortavam frases, títulos, e por vezes textos inteiros, de crónicas de opinião e artigos…Depois, tinha que improvisar, à pressa, fotografias ou notícias, para tapar buracos…”

Meu pai, pensativo, sacudia a cabeça em atitude de quem esperava o desenrolar da conversa.

- “ “ Após a Revolução dos Cravos – continuou, – tudo mudou. Publicava o que queria e dizia o que desejava…Chegavam os textos e escarrapachava tudo… Mas o pior foi depois…Veja: tive que ir ao tribunal por ter transcrito crónica de jornal de grande circulação. Vi-me grego para sair-me bem…”

- “ Agora sou eu que censuro os textos. Faço com severidade. Os matutinos de grande tiragem têm dinheiro e têm advogados… Mas os pequenos? Como posso manter demanda com poderosos? É o fim…”

E enquanto mostrava engenhoca, semelhante a máquina de escrever, que imprimia no zinco letras, rematou:

- “ Agora, se quero viver sossegado, não posso dizer o que quero nem permitir que os colaboradores digam o que desejam. O pequeno jornal vive de assinaturas, e principalmente de anúncios do comércio e indústria local. Tem-se que contar as moedas para comprar papel…Qualquer deslize…qualquer desabafo, pode ser a ruína da empresa.”

Ao lembrar-me desta conversa, com quase quarenta anos, lembrei-me o que disse socialista francês de meados do séc. XlX - citado por Fina d’Armada, cujo nome a autora não se recordava, in “ O Comércio do Porto”, a 21/03/97 - “ Para ele, a única liberdade real que existia (na democracia) era a liberdade do forte oprimir o fraco.”



HUMBERTO PINHO DA SILVA - Porto, Portugal



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terça-feira, 24 de março de 2015

ANÚNCIOS EM SITES E BLOGUES - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA


    

No último quartel do século passado a Net divulgou-se de tal modo, que a maioria da população – mormente a jovem, – passou a possuir computadores ligados à Internet.

Circulam por ela sites e blogues que permitem difusão de cultura e ideias.

Com o aparecimento, mais recente, das redes sociais, permitiu reunir, em rede, indivíduos, que embora residam em diferentes países, encontram-se unidos pela amizade ou troca de opiniões e conceitos.

Tem, todavia, essa estrada de comunicação – como tudo, – um lado negativo: a existência de sites e blogues que incitam a violência e propagam imagens impróprias e textos nefastos.

Deve ser vigiada, para segurança dos cidadãos, mas não deve haver, por parte das autoridades, censura, seja de que género for.

Mas sendo quase gratuita – paga-se a quem a fornece, – a utilização do espaço é gratuito, o que obriga as empresas utilizarem publicidade para cobrirem despesas.

É, portanto, compreensível, que tantos sites e blogues tenham anúncios - desde que não sejam ofensivos aos bons costumes, e mostrados de modo a não prejudicarem a leitura de textos publicados pelos responsáveis.

Acontece, porém, que começa a ser praga, a forma como os anúncios são apresentados: cobrindo fotografias, tapando palavras, desvios forçados, que teimam não obedecer, quando se deseja que desapareçam.

Compreende-se a necessidade de recorrer à publicidade paga, mas esta não deve impedir leitura de textos nem apagar palavras e frases.

Deste modo, a Internet, que foi e é considerada autoestrada da cultura e da informação, torna-se, para quem a usa, ato de paciência e constantes arrelias.

Há locais, em sites e blogues em que a publicidade, sendo bem visível, não incomoda a leitura. Por que não utiliza-los?

Por mim não compraria produto que diariamente impede acesso à leitura de textos.

Espero que com tanta publicidade indesejada e arreliadora, não destruam o interesse deste óptimo meio de informação e cultura.

Já é tempo de se saber colocar anúncios, em sites e blogues, sem despersonaliza-los, nem ofender leitores para bem da informação, da cultura e da liberdade.




HUMBERTO PINHO DA SILVA - Porto, Portugal


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segunda-feira, 16 de março de 2015

BRAGANÇA. AI QUE SAUDADE TENHO !... -Por HUMBERTO PINHO DA SILVA


  

  
A cidade que conservo na memória, não é a de hoje. A minha há muito morreu, mergulhada no passado. Perdida num tempo que já não é.

O Sol que agora bronzeia, patina, doira vetustas ruas, a cidadela, as velhas pedras seculares, é o mesmo; mas as figuras que animaram o antigo e senhorial burgo, há muito desapareceram num passado que passou.

Todavia vivem, ainda dentro de mim…Renascem em devaneios, em nostálgicos sonos, e persistem aconchegarem-se na alma saudosa.

Lembro-me – melhor se fecho os olhos, – a velha ronceira e embaladora automotora encarnada. Passeava preguiçosa pelos estreitos trilhos, rompendo por cerros fragosos e quase nus. O Tua, lá em baixo, de águas cristalinas, debatia-se exasperado, bracejando, entalado por alcantiladas e escarpadas ravinas de terra ocre, que pareciam despenhar-se à mais leve viração.

Vejo nitidamente a simpática estação ferroviária, toda branca, que acolhia os passageiros, ainda tontos e enjoados pelo baloiçar a que eram forçados.

Vejo, também, a antiquíssima Praça da Sé e o pelourinho, toda lajeada a granito, envelhecido pelos anos e pelo musgo. O casarão branco do Montepio; a pequena e animada livraria do Sr. Silva – sempre cumprimentador, sempre respeitoso: o Café Central, onde em calmas tardes, bebia o Martini, e nas frigidíssimas noites de Inverno, quando o vento soprava da Sanabria, e a fofa e alva neve tudo cobria, saboreava o cafezinho e o inseparável bagaço. Bagaço que só os transmontanos sabiam fabricar.

Chego, agora, ao aristocrático Chave D’Ouro, onde “importantes” cavaqueavam freneticamente, e eu, na flor da idade, estudava inglês e lia e relia Camilo. Livros que obtinha na carrinha da Biblioteca Itinerante, que estacionava, em determinado dia, sobre as sólidas e largas lajes, junto à Sé.




Bragança.jpg




Recordo com emoção o pequeno e familiar Café Lisboa. Sentado, junto ao balcão, escutando os entusiásticos comentários do Sr. Manuel, assisti, em directo, à façanha extraordinária da chegada do homem à Lua.

Lembro-me, ainda – como me lembro!, – ter presenciado a inauguração do Flórida. - Café que passou a ser frequentado pela rapaziada elegante da cidade.

Viajando ao sabor da memória pelas ruas empedradas da cidade, que já não existe, chego à “moderna” Avenida do Sabor.

Nela ficava a casa do Dr. Flores – sempre sisudo, de cara cerrada e de coração generoso, – e a do Dr. Pires, mais a numerosa prole…

Nessa avenida conheci graciosa moreninha, de pele macia e doirada. Cabelo castanho que coruscava ao sol, apanhado em farto rabo-de-cavalo. O olhar irradiava ingenuidade e extrema candura.

Há crianças que não devem crescer. São bênçãos. Anjos que amenizam vicissitudes. Essa era uma delas. Conservo na retina o encantador sorriso e o rostinho angelical.

Dos passeios que dava – e não foram poucos, – não posso esquecer a trilha pitoresca que ladeava o manso Fervença – rio que desce pachorrentamente, no forte do Verão, entre agrestes e escabrosos cerros.




Pelourinho e Castelo de Bragança.jpg




Entranhava por vielas e becos da cidadela, e meditando e rezando, alheado de tudo e de todos, sempre trilhando estreitos carreiros, chegava ao Café Floresta; com o rio, de águas translúcidas, aos pés, e o céu azul profundo, como teto. E sempre o murmúrio das águas… e o murmúrio surdo do silêncio…

Ai que saudade tenho das quentes noites de Estio! Logo que empalidecia o céu, em tons de fogo, e o Sol incendiava-se no horizonte, caminhávamos em grupo para o Jardim António Nicolau d’Almeida, que ficava junto ao rio. Ouvia-se música quase toda romântica. Roberto Carlos era o rei. Pares de namorados, enlevados, passeavam de mãos enlaçadas, cochichando doces palavras de amor…

Perdição para moças casadoiras eram os milicianos do BC3. Chegavam a visitá-los – os de maior patente, – no quartel.

O Batalhão resumia-se a duas ou três casernas mal-amanhadas, cercadas de improvisada vedação. Não havia portas. Não fossem sentinelas, circulava-se livremente.

À hora de almoço, a carrinha vinha receber oficiais e sargentos à Praça da Sé, para os levar até ao morro do quartel.

Agora, no crepúsculo da vida, em horas de nostalgia, escutando o murmúrio longínquo da velha Parca, uma onda de saudade invade-me a alma…e magoa, e fere, e dói…

E a voz que brota dentro do peito, pergunta-me: - Onde estão os que se acotovelavam e pontapeavam-se na raivosa ânsia de alcançar o topo do sucesso?

E a mesma voz sussurra-me: - Repousam o eterno sono… Viveram… mas foi como não vivessem... Lutaram… mas é como não tivessem lutado… A morte igualou – vencidos aos vencedores. Reduziu-os a cinza…a nada.

Tudo morre. Tudo desaparece. Tudo é esquecido…. Tudo se transforma em pó…em poalha de nada.




HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal


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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A DANÇA DAS PLACAS - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA




Existe, no centro da cidade do Porto, rua muito comercial, cujo nome varia consoante o regime político instalado em Lisboa. É a Rua de Santo António ou 31 de Janeiro, como velhos e saudosos republicanos gostam de chamar.

Logo que o regime, implantado pela Revolução de 28 de Maio, caiu, alguns democratas, apressaram-se a mudar a placa, que homenageava o santo português.

O mesmo aconteceu em Vila Nova de Gaia, na avenida principal, que sempre a conheci por Marechal Carmona, mas já fora da República, e depois rebatizada com o nome do mais popular Presidente da República do Estado Novo.

Que ditadores queiram apagar nomes de democratas, compreende-se, mas os que apregoam a liberdade, o façam, é de pasmar!

Em Lisboa, a Ponte Salazar, construída sem subsídios da Europa, ou de grandes potencias, passou, após a Revolução dos Cravos, a ser: 25 de Abril; mas como nada tinha a ver com a revolução, o povo - que é sempre mais sensato que os políticos, - resolveu chamá-la: Ponte Sobre o Tejo, e assim - penso, - ficará para sempre.

No país irmão - será o Brasil país irmão? - Creio que sim, pelo menos, a maioria da população é, também, a “dança” das placas é frequente.

Com a queda da monarquia, as ruas do Rio mudaram de nome: o Largo da Imperatriz, passou a praça Quintino Bocaiuva, e a Rua da Princesa, a Rui Barbosa.

A da Misericórdia - como se a misericórdia fosse monarquista, - passou a Batalhão Académico, e assim por diante.

É interessante saber que os republicanos, no Brasil, prometeram, em 1890, realizar referendo, para o povo legalizar o novo regime; mas, talvez, receando que preferissem a monarquia, só se realizou em 1993, quando, pelas sondagens, se sabia não haver perigo para o regime.

Em Portugal, ainda se aguarda oportunidade do povo escolher o regime que prefere; talvez, porque se considera que a população não tem, ainda, capacidade de saber o que quer, ou para não se ter que repetir, o referendo… como aconteceu com o do “aborto”

Amigo, já falecido, certa tarde de domingo disse-me: “Todos dizem ser democratas…mas muitos há, que não passam de ditadores mascarados….”
Creio que tinha razão.



HUMBERTO PINHO DA SILVA - Porto, Portugal


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sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

O JEITINHO - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA



   
Era ainda cachopo quando presenciei esta cena caricata, que jamais esqueci:

Amigo de meu pai tinha um filho, que era negação para as letras. Com jeitinhos chegou ao quinto ano liceal, mas o inglês é que, por mais explicadores que tivesse, não lhe entrava na cabeça. Escrito, ainda dava um jeito, mas falado… era o diabo.

Sabendo que meu pai era amigo de professor, que certamente iria fazer o exame, veio pedir-lhe para interceder. O moço precisava do diploma, para poder concorrer a emprego decente.

Como se sabia que o dito professor, todos os domingos, assistia à missa em determinada igreja, meu pai compareceu no adro, para solicitar-lhe benevolência e água-benta para o rapaz.

A igreja era frequentada, também, por médico, amigo de meu pai, que ao vê-lo apressou-se a cumprimenta-lo.

Conversavam, quando apareceu o professor.

Meu pai fez o pedido, e pintou o drama do mocinho, apelando para o facto de também ser pai.

O professor, meio atrapalhado, esfregava as mãos, mordia os lábios, olhava para o céu, como procurasse inspiração, e declarou:

- Na oral, pode contar comigo… mas na escrita…

Nesse momento, o médico, virando-se para o assarapantado professor, disse:

- Ora…Você não conhece a letra dos seus alunos?!…

- Sim…Mas… - respondeu o homem.

- Mas…Quando vai ao meu consultório pedir atestado, por ter estado doente, eu sei que é falso… mesmo assim, faço-lhe o favor de acreditar…

- Mas…Compreende…Não posso…; não devo…; não gosto…; nem seria justo…

- Pois eu também não gosto de fazer ilegalidades…; portanto: só passo atestados, sabendo que realmente esteve doente… - Concluiu o médico, que tinha um coração de oiro, segundo constava.

Não sei se o professor fez ou não o jeitinho. Apenas sei que o rapaz parece que passou.

Tudo isso ocorreu há muito mais de meio século, mas creio, que a cunha e o jeitinho continuam…

É instituição nacional. Há quem diga que não faz favores, para não ser incomodado; mas, quando, quem o pede, é pessoa de peso, e pode-lhe fazer jeitinhos…lá vai, muito contrariado, intercedendo… Não vá o diabo tecê-las, e vir a precisar…É que a porta pode fechar-se… em nome da legalidade…

Não sou a favor de jeitinhos, mas por vezes, pode mudar uma vida…sem prejudicar, seja quem for.




HUMBERTO PINHO DA SILVA - Porto, Portugal
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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

POR QUE SOMOS POBRES ? - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA


  

É frequente ouvir que somos uma nação pequenina e de poucos recursos. Todavia há países menores e mais pobres, e o nível de vida é bem mais elevado.

Portanto: não é essa a razão por que vivemos sempre de crise em crise.

Poderia, e seria mais fácil, responsabilizar a classe política, mas parece-me que a culpa das nossas eternas dificuldades, não reside nos governantes que temos, mas no povo que somos.

Ouço, a cada passo, criticar o deficiente ensino, a falta de hospitais bem apetrechados e a ausência de serviço de saúde capaz.

Mas muitos, que descem a terreiro para lamentar, que não temos escolas, nem professores bem remunerados, muitas vezes são os mesmos que se vangloriam por conseguirem sonegar os impostos, que lhes são devidos.

Será que não temos o nível de vida do primeiro mundo, por causa dos governantes ou por que somos desonestos ao sonegar os impostos?

Quanta vez, ao pagar o cafezinho da tarde, verifico que as moedas entram directamente na caixa, sem registo, e o mesmo acontece, infelizmente, em muitos estabelecimentos dos mais diversos ramos.

Por vezes ao solicitar orçamento, para reparar objecto ou fazer obras de restauro, em casa, ouço perguntar, se quero factura. E logo acrescentam: - “ O conserto vai ficar mais caro, se quiser! …”

Se todos “roubam” o Estado, este não tem outro remédio senão aumentar impostos. E quem não sonega ou não pode sonegar, é que sempre tem de abrir a bolsa.

Vem todo este introito, para declarar que estou plenamente de acordo com a obrigatoriedade de passar factura, com o número do contribuinte.

Estava a louvar a medida, em local público, quando alguém, que escutava, discordou. E logo esclareceu:

- “Isso é uma forma de se saber quanto dinheiro gastamos… e ganhamos.”

- E que interesse há nisso! - Respondi, não entendendo o receio.

Mas logo esclareceram-me:

- “ Para você, que certamente vive de pensão, tanto dá, mas para quem ganha por fora, isso pode ser a ruína…se há descuido…”

Percebi, então, porque não se pede factura. É que muitos que recebem o salário mínimo ou muito mais, tiram, por fora, outro tanto, limpos de impostos, e ainda têm direito a receber: subsídios, auxílios e bolsas… por serem pobrezinhos…

Por isso, é que vejo muitos indignados, pela medida acertada.

Por isso é que continuamos a ser pais pequenino, em tudo: em tamanho e mentalidade.

É que uns andam, injustamente, sobrecarregados de impostos; e outros, fazendo vida de cigarra, rindo-se dos honestos e patriotas.

Com tantos a sonegar, o que é devido, como podemos ter educação, saúde de boa qualidade, e ainda pensões dignas.?!




HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal


publicado por solpaz às 12:00
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segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

O SUCESSO DE UMA MENINA RICA - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA



    
No início do presente século, conheci senhora, viúva, que pertencia a ilustre família lisboeta.

Dedicava-se às Letras. Tinha vários livros publicados, que oferecia aos amigos. Desconheço se alguma vez chegou a colocá-los nas livrarias.

Já bastante doente, mas muito lúcida colaborava no blogue luso-brasileiro “PAZ”, com poemas e textos, bem escritos e bem curiosos.

Nesse tempo, o blogue, era publicado na comunidade do jornal “SOL”; mais tarde, por motivos técnicos, deixou o “SOL” e sofreu algumas alterações.

Mas, não era intenção abordar o blogue luso-brasileiro, mas sim minha querida amiga, já falecida.

Contou-me, a poetisa, que quando era nova, gostava de escrever poesia. Eram poemas incipientes de quem começa a versejar.

O pai, pessoa influente, conhece-os, e para lhe ser agradável, disse-lhe que iria publicá-los.

Escusado é dizer, que a menina ficou radiante, e não se conteve enquanto não contou, a façanha, às amigas mais íntimas.

O que não esperava, é que o pai fosse solicitar o apoio de conhecido escritor, homem, de nome feito, e autor de romances conhecidíssimos.

Para ser simpático ao amigo – amigo rico e influente, – o escritor pediu a jornalistas e homens de letras, seus conhecidos, que escrevessem palavrinhas amáveis, sobre os poemas, se possível na mass-media.

O livro, quando saiu, vinha com abas e contracapa recheadas de pareceres de nomes pomposos. A menina delirou ao ver o livro nos escaparates, e ainda mais, quando a televisão a convidou para curta entrevista.

Outras obras foram entretanto publicadas, muito mais estruturadas e com textos e poemas de melhor quilate, mas não obtiveram o sucesso da primeira.

Dizia-me, então, minha querida amiga: ”falecido meu pai, nunca mais a critica se preocupou com os meus escritos…”

O êxito não estava na obra, mas no dinheiro paterno, e na influência que este tinha.

Moral da história: O mérito não reside no que se diz, mas de quem o diz. Neste caso, na carteira e relacionamentos paternos.





HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal


publicado por solpaz às 15:53
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