sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A DANÇA DAS PLACAS - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA




Existe, no centro da cidade do Porto, rua muito comercial, cujo nome varia consoante o regime político instalado em Lisboa. É a Rua de Santo António ou 31 de Janeiro, como velhos e saudosos republicanos gostam de chamar.

Logo que o regime, implantado pela Revolução de 28 de Maio, caiu, alguns democratas, apressaram-se a mudar a placa, que homenageava o santo português.

O mesmo aconteceu em Vila Nova de Gaia, na avenida principal, que sempre a conheci por Marechal Carmona, mas já fora da República, e depois rebatizada com o nome do mais popular Presidente da República do Estado Novo.

Que ditadores queiram apagar nomes de democratas, compreende-se, mas os que apregoam a liberdade, o façam, é de pasmar!

Em Lisboa, a Ponte Salazar, construída sem subsídios da Europa, ou de grandes potencias, passou, após a Revolução dos Cravos, a ser: 25 de Abril; mas como nada tinha a ver com a revolução, o povo - que é sempre mais sensato que os políticos, - resolveu chamá-la: Ponte Sobre o Tejo, e assim - penso, - ficará para sempre.

No país irmão - será o Brasil país irmão? - Creio que sim, pelo menos, a maioria da população é, também, a “dança” das placas é frequente.

Com a queda da monarquia, as ruas do Rio mudaram de nome: o Largo da Imperatriz, passou a praça Quintino Bocaiuva, e a Rua da Princesa, a Rui Barbosa.

A da Misericórdia - como se a misericórdia fosse monarquista, - passou a Batalhão Académico, e assim por diante.

É interessante saber que os republicanos, no Brasil, prometeram, em 1890, realizar referendo, para o povo legalizar o novo regime; mas, talvez, receando que preferissem a monarquia, só se realizou em 1993, quando, pelas sondagens, se sabia não haver perigo para o regime.

Em Portugal, ainda se aguarda oportunidade do povo escolher o regime que prefere; talvez, porque se considera que a população não tem, ainda, capacidade de saber o que quer, ou para não se ter que repetir, o referendo… como aconteceu com o do “aborto”

Amigo, já falecido, certa tarde de domingo disse-me: “Todos dizem ser democratas…mas muitos há, que não passam de ditadores mascarados….”
Creio que tinha razão.



HUMBERTO PINHO DA SILVA - Porto, Portugal


publicado por solpaz às 10:49
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sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

O JEITINHO - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA



   
Era ainda cachopo quando presenciei esta cena caricata, que jamais esqueci:

Amigo de meu pai tinha um filho, que era negação para as letras. Com jeitinhos chegou ao quinto ano liceal, mas o inglês é que, por mais explicadores que tivesse, não lhe entrava na cabeça. Escrito, ainda dava um jeito, mas falado… era o diabo.

Sabendo que meu pai era amigo de professor, que certamente iria fazer o exame, veio pedir-lhe para interceder. O moço precisava do diploma, para poder concorrer a emprego decente.

Como se sabia que o dito professor, todos os domingos, assistia à missa em determinada igreja, meu pai compareceu no adro, para solicitar-lhe benevolência e água-benta para o rapaz.

A igreja era frequentada, também, por médico, amigo de meu pai, que ao vê-lo apressou-se a cumprimenta-lo.

Conversavam, quando apareceu o professor.

Meu pai fez o pedido, e pintou o drama do mocinho, apelando para o facto de também ser pai.

O professor, meio atrapalhado, esfregava as mãos, mordia os lábios, olhava para o céu, como procurasse inspiração, e declarou:

- Na oral, pode contar comigo… mas na escrita…

Nesse momento, o médico, virando-se para o assarapantado professor, disse:

- Ora…Você não conhece a letra dos seus alunos?!…

- Sim…Mas… - respondeu o homem.

- Mas…Quando vai ao meu consultório pedir atestado, por ter estado doente, eu sei que é falso… mesmo assim, faço-lhe o favor de acreditar…

- Mas…Compreende…Não posso…; não devo…; não gosto…; nem seria justo…

- Pois eu também não gosto de fazer ilegalidades…; portanto: só passo atestados, sabendo que realmente esteve doente… - Concluiu o médico, que tinha um coração de oiro, segundo constava.

Não sei se o professor fez ou não o jeitinho. Apenas sei que o rapaz parece que passou.

Tudo isso ocorreu há muito mais de meio século, mas creio, que a cunha e o jeitinho continuam…

É instituição nacional. Há quem diga que não faz favores, para não ser incomodado; mas, quando, quem o pede, é pessoa de peso, e pode-lhe fazer jeitinhos…lá vai, muito contrariado, intercedendo… Não vá o diabo tecê-las, e vir a precisar…É que a porta pode fechar-se… em nome da legalidade…

Não sou a favor de jeitinhos, mas por vezes, pode mudar uma vida…sem prejudicar, seja quem for.




HUMBERTO PINHO DA SILVA - Porto, Portugal
publicado por solpaz às 10:58

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

POR QUE SOMOS POBRES ? - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA


  

É frequente ouvir que somos uma nação pequenina e de poucos recursos. Todavia há países menores e mais pobres, e o nível de vida é bem mais elevado.

Portanto: não é essa a razão por que vivemos sempre de crise em crise.

Poderia, e seria mais fácil, responsabilizar a classe política, mas parece-me que a culpa das nossas eternas dificuldades, não reside nos governantes que temos, mas no povo que somos.

Ouço, a cada passo, criticar o deficiente ensino, a falta de hospitais bem apetrechados e a ausência de serviço de saúde capaz.

Mas muitos, que descem a terreiro para lamentar, que não temos escolas, nem professores bem remunerados, muitas vezes são os mesmos que se vangloriam por conseguirem sonegar os impostos, que lhes são devidos.

Será que não temos o nível de vida do primeiro mundo, por causa dos governantes ou por que somos desonestos ao sonegar os impostos?

Quanta vez, ao pagar o cafezinho da tarde, verifico que as moedas entram directamente na caixa, sem registo, e o mesmo acontece, infelizmente, em muitos estabelecimentos dos mais diversos ramos.

Por vezes ao solicitar orçamento, para reparar objecto ou fazer obras de restauro, em casa, ouço perguntar, se quero factura. E logo acrescentam: - “ O conserto vai ficar mais caro, se quiser! …”

Se todos “roubam” o Estado, este não tem outro remédio senão aumentar impostos. E quem não sonega ou não pode sonegar, é que sempre tem de abrir a bolsa.

Vem todo este introito, para declarar que estou plenamente de acordo com a obrigatoriedade de passar factura, com o número do contribuinte.

Estava a louvar a medida, em local público, quando alguém, que escutava, discordou. E logo esclareceu:

- “Isso é uma forma de se saber quanto dinheiro gastamos… e ganhamos.”

- E que interesse há nisso! - Respondi, não entendendo o receio.

Mas logo esclareceram-me:

- “ Para você, que certamente vive de pensão, tanto dá, mas para quem ganha por fora, isso pode ser a ruína…se há descuido…”

Percebi, então, porque não se pede factura. É que muitos que recebem o salário mínimo ou muito mais, tiram, por fora, outro tanto, limpos de impostos, e ainda têm direito a receber: subsídios, auxílios e bolsas… por serem pobrezinhos…

Por isso, é que vejo muitos indignados, pela medida acertada.

Por isso é que continuamos a ser pais pequenino, em tudo: em tamanho e mentalidade.

É que uns andam, injustamente, sobrecarregados de impostos; e outros, fazendo vida de cigarra, rindo-se dos honestos e patriotas.

Com tantos a sonegar, o que é devido, como podemos ter educação, saúde de boa qualidade, e ainda pensões dignas.?!




HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal


publicado por solpaz às 12:00
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segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

O SUCESSO DE UMA MENINA RICA - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA



    
No início do presente século, conheci senhora, viúva, que pertencia a ilustre família lisboeta.

Dedicava-se às Letras. Tinha vários livros publicados, que oferecia aos amigos. Desconheço se alguma vez chegou a colocá-los nas livrarias.

Já bastante doente, mas muito lúcida colaborava no blogue luso-brasileiro “PAZ”, com poemas e textos, bem escritos e bem curiosos.

Nesse tempo, o blogue, era publicado na comunidade do jornal “SOL”; mais tarde, por motivos técnicos, deixou o “SOL” e sofreu algumas alterações.

Mas, não era intenção abordar o blogue luso-brasileiro, mas sim minha querida amiga, já falecida.

Contou-me, a poetisa, que quando era nova, gostava de escrever poesia. Eram poemas incipientes de quem começa a versejar.

O pai, pessoa influente, conhece-os, e para lhe ser agradável, disse-lhe que iria publicá-los.

Escusado é dizer, que a menina ficou radiante, e não se conteve enquanto não contou, a façanha, às amigas mais íntimas.

O que não esperava, é que o pai fosse solicitar o apoio de conhecido escritor, homem, de nome feito, e autor de romances conhecidíssimos.

Para ser simpático ao amigo – amigo rico e influente, – o escritor pediu a jornalistas e homens de letras, seus conhecidos, que escrevessem palavrinhas amáveis, sobre os poemas, se possível na mass-media.

O livro, quando saiu, vinha com abas e contracapa recheadas de pareceres de nomes pomposos. A menina delirou ao ver o livro nos escaparates, e ainda mais, quando a televisão a convidou para curta entrevista.

Outras obras foram entretanto publicadas, muito mais estruturadas e com textos e poemas de melhor quilate, mas não obtiveram o sucesso da primeira.

Dizia-me, então, minha querida amiga: ”falecido meu pai, nunca mais a critica se preocupou com os meus escritos…”

O êxito não estava na obra, mas no dinheiro paterno, e na influência que este tinha.

Moral da história: O mérito não reside no que se diz, mas de quem o diz. Neste caso, na carteira e relacionamentos paternos.





HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal


publicado por solpaz às 15:53
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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

A DESGRAÇA DE SER CADEIRANTE - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA



  
Tenho o feio costume de escutar conversas, quando viajo ou bebo o cafezinho.

Sei que não devo, mas não resisto à tentação. O vicio tem-me sido útil para conhecer o que pensa o semelhante, e muitas vezes encontro matéria para as conversas, que com prazer, travo com o leitor.


Dias destes, vindo de metro da Povoa do Varzim para a Trindade, estacionou a cadeira de rodas, bem ao meu lado, uma jovem, que não teria ainda vinte anos.

Era bonita, de grandes olhos brilhantes e irrequietos. Vinha acompanhada por senhor, que pensei ser o pai. Enganei-me.

Durante o percurso, conversaram animadamente. Dizia a jovem que os inválidos sentem dificuldade em movimentarem-se nas cidades.

Os prédios não possuem rampas, assim como a maioria das casas comerciais, repartições públicas e até as caixas Multibanco são muitas vezes inacessíveis.

- Veja! - Dizia com mágoa a rapariguinha. - São poucos os templos que têm acesso por rampas! Olhe: para a nossa Póvoa. Cresceu, a olhos vistos, nas últimas décadas. A maioria dos prédios não têm mais de vinte anos, todavia raros são os que permitem acesso a cadeirantes.

O senhor sacudia a cabeça em sinal de aprovação. Lamentando que não houvesse esse cuidado, mesmo em prédios com elevadores.

Passei a viagem a refletir sobre o assunto, e conclui: que muitos construtores, engenheiros e arquitetos são de grande insensibilidade.

O que custa criarem rampas de acesso aos prédios? Não se colocam elevadores, para facilitar o acesso aos andares superiores, e rampas, nas entradas das garagens? Então para quê colocar degraus nas entradas?!

Que prédios antigos fossem construídos sem esse requisito, é desculpável - mas não se compreende, - mas que as Câmaras aprovem prédios novos sem rampas de acesso, é inacreditável.

Não será falta de respeito para os que tiveram a infelicidade, por velhice ou acidente ficaram inválidos?

  
HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto,Portugal
  
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domingo, 23 de novembro de 2014

UMA ANEDOTA VERDADEIRA - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA







Queixava-se, esta tarde, na cafetaria onde costumo merendar, meu amigo Silvério, que já não há gente honesta.

Para confirmar a asserção, ilustrou com o que lhe aconteceu há dias:

Comprara, há anos, apartamento à beira-mar, para férias.
Nessa época, toda a família passava o mês de Agosto, na praia.

Iam de automóvel, que colocava no aparcamento, que comprara.

As crianças esperavam ansiosas a época balnear. Divertiam-se imenso. Por vezes convidavam amiguinhos. A alegria transbordava.

O tempo passou. As crianças cresceram. Chegava Agosto e esquivavam-se: tinham que estudar; havia compromissos inadiáveis; que mais tarde iam com amigos…

Silvério envelheceu. Os filhos casaram. A mulher começou a sofrer de reumatismo…Meu companheiro de menininho foi deixando o carro esquecido na garagem.

Deslocavam-se de comboio. Ficava mais económico. O peso dos anos já não lhe permitia percorrer longas distâncias.

O aparcamento ficou vazio.

Como era ponto estratégico, começou a ser cobiçado por “ aventureiros”, que viram meio de usufruírem aparcamento gratuito.

Certa vez, o filho mais velho foi passar uma semana, na praia. Chegou e estacionou o carro.

Pela manhã encontrou bilhetinho:

Por favor, retire a viatura.
Este lugar é meu.

Desgostoso, Silvério, resolveu alugar o espaço. Colocou no quadro do condomínio, aviso.

Decorrido semanas toca o telemóvel. Era senhora a solicitar autorização para colocar o carro, enquanto não alugasse o espaço. Tinha dois carros e só possuía um aparcamento.

Estupefacto, declarou que o espaço era para arrendar, como certamente sabia, pelo anúncio.

Meses depois, o filho foi com a esposa passar fim-de-semana à casa de praia. Chegou ao entardecer. Estacionou o carro no aparcamento.

Pela manhã, do dia imediato, encontro, na viatura, o seguinte aviso:

Retire o carro deste lugar,
  Ou terei que chamar a polícia.

Parece anedota, mas infelizmente não é.
Assim vai o mundo… e a educação da nossa gente.




HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal

publicado por solpaz às 14:32

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

OS AFECTOS QUE NÂO DEMOS - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA






Pouco a pouco, lentamente, ano a ano, quase sem sentir, avizinha-se o fim da jornada.

Passamos a vida a cuidar – da nossa saúde, da nossa carreira profissional, da satisfação dos nossos desejos; olvidando que para ser feliz é mister cuidar dos outros.

Adiamos sempre para amanhã – que nunca chega, – para conviver, abraçar o amigo, o familiar, porque não temos tempo…ou por comodismo…

E para amanhã ficam os telefonemas, as conversas, as horas de convívio com aqueles que nos querem bem.

De longe a longe, dizemos-lhes: - Havemos de combinar…mas sabemos que o amanhã nunca chegará…

E deste jeito, quantos abraços deixamos de dar? Quantos elogios ficam por fazer?

Mas, em hora inesperada, chega a doença, surgem as limitações e então cogitamos: por que não disse o que ia na alma?! Por que não abracei meus irmãos e a causa que me era querida?!

Adiamos sempre: Amanhã vou fazer isto. Hei-de dedicar-me à música. Quando aposentar-me vou pintar…Servir uma causa humanitária…Sempre para amanhã…Sempre para o futuro.

Vivemos dentro de um sonho. Só muito tarde acordamos e, estupefacto, verificamos que não vivemos…As oportunidades e a saúde, passaram…e o tempo não volta.

Lamentamos, então, os anos perdidos. A juventude que passou… e o que passou…não passará mais…

Já não vamos a tempo de dizer: quanto amavamos a nossa mãe, a nossa irmã, aqueles que connosco repartiram a vida – os amigos, os colegas de trabalho, os companheiros que cruzaram com a nossa vida.

Então lamentamos, os abraços que não demos. Os beijos que deixamos de dar. Os afectos que tornariam felizes os que aguardavam os nossos carinhos….Mas é tarde…Muito tarde…Porque o tempo é como as águas do rio, nunca passam pelo mesmo lugar.




HUMBERTO PINHO DA SILVA - Porto, Portugal


publicado por solpaz às 10:39
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