sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O tempo - Por João Bosco Leal (*)




Durante toda a vida, nas mais diversas áreas, nos envolvemos em situações extremamente distintas, diante das quais, depois de algum tempo, muito provavelmente não teríamos nos comportado da mesma maneira. Isso é o aprendizado, crescimento, e feliz é aquele que, quando necessário, se arrepende, muda de opinião e segue por novos caminhos.

Situações constrangedoras, que em algum momento nos encabularam, dias depois normalmente passam a ser divertidas, provocando risos em nós mesmos. Outras, que nos provocam algum tipo de tensão, ou mesmo de ira, após algum tempo deixam de ter importância.

Pessoas que de uma forma ou outra nos magoaram, muitas vezes não o fizeram com essa intenção e o tempo se encarrega de nos fazer esquecer as que foram provocadas propositadamente.

Só o tempo é capaz de, um dia, nos fazer entender que ele jamais foi nosso inimigo, mas nosso maior mestre, mostrando-nos a importância de cada sorriso, cumprimento, abraço ou carinho e também a das pedras encontradas em nosso caminho, algumas das quais pudemos nos desviar e das outras, que nos derrubaram.

Ele nos ensina a observar, aprender com as experiências alheias, dispensando-nos de passar pelas já vividas por outros, facilitando, assim, nosso crescimento em todos os campos e mostrando que os problemas sempre existiram e existirão, mas que a fuga nunca foi ou será uma saída apropriada ou digna.

Com ele aprendemos a aceitar e não gastarmos mais energia com algo que já não pode ser mudado e também, que quando se ama verdadeiramente, não se deve pedir, reivindicar ou exigir o mesmo, mas sim oferecer nosso amor, que poderá ser ou não aceito pela pessoa amada.

O nascimento em lares mais privilegiados, social, cultural ou economicamente não determina o futuro das pessoas, pois em muitas ocasiões essas posições se invertem com o tempo, seja pelo esforço individual de uns, sua capacidade produtiva, administrativa, ou pela falta destas em outros.

O tempo, em qualquer setor, só é útil para quem o aproveita, mas dá a todos, inclusive para os que caíram e sofreram ou aos que chegam à conclusão que o perderam, a oportunidade do amadurecimento, do aprendizado constante.

Ele diariamente mostra aos mestres que, quando ensinam, estão sempre aprendendo e aos avós - antes enérgicos com seus filhos -, que hoje só devem brincar com seus netos.

Ensina que toda escolha gera uma consequência, que as mentiras fazem estragos bem maiores que os provocados pela sinceridade, que o silêncio é a maneira mais inteligente de não se desgastar desnecessariamente e que não há juiz mais justo - e também severo -, que o tempo.

Comprova que todos os acontecimentos vividos, que deram prazer ou dores, quando se errou ou acertou, foram importantes para o aprendizado, o amadurecimento, lições que proporcionaram maior experiência e provavelmente, possibilitarão a diminuição dos erros nos próximos passos.

O tempo caminha sempre ao nosso lado e lentamente vai ensinando tudo o que realmente vale a pena.

* Jornalista, escritor e empresário

sábado, 12 de julho de 2014

O MELHOR AMIGO DE MOZART - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA










A dedicação, a lealdade, e a gratidão, que os cachorros têm a quem se dedica a eles, é sobejamente conhecida.

Todos conhecemos, ou pelo menos escutamos, cenas comoventes, e provas exemplares de amor.

O cão não é apenas animal de estimação, presta, desde tempos imemoriais, valiosos serviços. É o único ser, que consegue apenas viver de amor.

Os restantes animais têm, que retribuir com trabalho. Ao cachorro, não.

A dedicação, o entusiasmo que demonstram ao verem o dono; o instinto de protegerem quem cuida e lhes dispensa carinho, garante-lhes vida folgada.

Ao ler a biografia do compositor Mozart, fiquei impressionadíssimo com a dedicação do seu cão Pimperl; o único, que indiferente à violenta intempérie, que desabara sobre Viena, acompanhou-o até ao cemitério de São Marxer, atrás do carro que transportava o compositor.

Até à igreja de Santo Esteves, três ou quatro amigos, provavelmente admiradores do talento genial de Mozart - ou seria compaixão? - Seguiram o féretro, depois, só o cachorro - o amigo sincero que tinha, - acompanhou o funeral; e mergulhado em profunda tristeza, assistiu ao sepultamento, em vala comum.

Dizem, não há confirmação, que a esposa, Constanze Weber, não acompanhou o marido, por se encontrar muito comovida.

Decorridos dias, foi ao cemitério certificar-se onde haviam enterrado Mozart.

Disseram-lhe que não sabiam, porque fora atirado para a vala comum: Porém, um coveiro, esclareceu-a, que dias depois, apareceu morto, devido ao frio e à fome, cachorro, no local onde enterraram Mozart, mas tinham-no lançado ao lixo.

Esta informação, digna de registo, nunca foi devidamente confirmada. Biógrafos do compositor, consideram-na fantasia - fazendo parte da lenda urdida à volta de Mozart e do dedicado cão.

A desgraça e a fuga de amigos, deve-se, em parte, à inveja do compositor António Solleri, receoso de ser ofuscado, e perder o prestígio que gozava em Viena.

De concreto quase nada se conhece. - Esquecidos os êxitos de Mozart, as noites de glória, os louvores de reis e rainhas, a condecoração do Papa Clemente XIV, e a admiração de muitos compositores e músicos do seu tempo, Mozart passou a ser um desconhecido…

Uns, dizem que faleceu junto da esposa; outros, que ela estava em Paris, e que a família vivendo em Salzburgo – cidade natal do compositor, – não pode estar presente no funeral, realizado por amigo.

Ao certo, conhece-se que apenas o cachorro o acompanhou à última morada.

Ao ouvir-se a “Flauta Mágica”,”As Bodas de Fígaro” ou “ Don Giovanni”, é bom lembrar que o verdadeiro amigo do genial Mozart, foi o seu cão: indiferente à miséria, à chuva, à tempestade desabrida, que caía, acompanhou o dono até ao cemitério… e ai morreu de amor e saudade.




HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal




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segunda-feira, 7 de julho de 2014

PARECEM ANEDOTAS ... MAS NÃO SÃO - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA





 







Recentemente, o Papa Francisco, disse que ficava com “ pele de galinha” só de pensar que alguns sacerdotes podem ser pequenos monstros, visto faltar-lhes formação que lhes permita contactar com os outros, como pais, irmãos, companheiros de jornada, segundo revela “ La Civilta Cattolica”.

A “pele de galinha” do Papa e a falta de preparação para lidarem com o semelhante, fez-me recordar casos, que presenciei ao longo da vida:



***


Estava a participar na missa, numa Igreja da Diocese do Porto, quando, como preambulo da homilia, o sacerdote, virando-se para a assembleia, declara:

- No altar não deve haver flores, velas, objetos, como está neste. Não sou pároco daqui, por isso é só um reparo.

O comentário, dito em público, desagradou a quem, por gentileza, encarrega-se de enflorar o altar. Além der censura, discreta, ao padre da paróquia.



***



Havia coro, de dezenas de pessoas, ensaiado por modesto maestro, que estava a fazer furor.

Cheguei a ouvi-los na igreja de Nª Senhora da Esperança, no Porto, em missa rezada por alma dos antigos associados dos Amigos do Porto.

Certa ocasião, estava o maestro entusiasmado, e não percebendo que o sacerdote queria prosseguir a celebração, continuou o cântico.

Vira-se o abade. Olha para o coro, e alteando a voz, exclama:

- Acabe lá com a cassete!

Resultado: o maestro desistiu, e o coro desapareceu.



***



Certa vez - foi nos anos sessenta, - estando com meu pai, este, resolveu assinar a “ Voz de Fátima”, para ajudar o jornalzinho.

Entramos na redação. Sentado, junto a secretária havia um padre ainda jovem.

Mal entramos, perguntou:

- O que é que vossemecê quer daqui?!

Ao que meu pai respondeu prontamente:

- Já não quero nada…



***



Na década cinquenta, numa freguesia nortenha, o abade pregou a devoção da Medalha Milagrosa. Recomendou que todos deviam ter uma, informando que no final da missa fossem ter com ele à sacristia.

O mulherio correu em massa. O abade ao ver tanta gente, gritou em voz grossa:

- Desampare-me o aído.

E brincalhão que estava perto da porta da rua, exclamou:

- Deixem o aído para o Senhor abade! …



***



Agora, uma, ocorrida durante almoço, que pastor evangélico me ofereceu:

A esposa, ultimava os últimos preparos, na cozinha, enquanto a filha, de treze anos, punha a mesa.

Inexperiente, atrapalhada, não atinava com os talheres.

O pai, de cara fechada, assistia a tudo e repreendia:

- Também quero ver o que vais fazer?!

Vermelha, como tomate, atarantada, a menina chorava. As lágrimas escorriam-lhe pela face, como duas bicas, e o pai:

- Não são esses. Vai buscar outros….



***



Outrora ia-se para o seminário para estudar de graça. Ser padre dava classe e prestigio.

Os meninos ficavam cultos, mas raramente educados. Agora as vocações, na Igreja Católica, são escassas, mas mais sinceras

Ao invés, em alguma Igrejas Evangélicas e principalmente, seitas, não faltam vocações, pelo menos enquanto receberem remunerações principescas…

Conheci pobre homem, pastor de igrejinha, em Custóias, que lamentava-se da má sorte, porque amigo, cozinheiro de profissão, conseguiu pastorear, recebendo seis mil escudos, em época que metade já seria muito bom para licenciado.

Para finalizar, a declaração, publicada numa revista evangélica, de pastor, ao saber que recebeu chamado para trabalhar nas missões:

- Aceitei, porque sempre ganho para comprar casa na minha terra…

Pela sinceridade…tem o meu aplauso e perdão.






HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal
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segunda-feira, 30 de junho de 2014

Observo - Por João Bosco Leal

  • 27 de junho de 2014

Olho 02
As amadas.
As odiadas.
As ousadas.
As usadas.

As confiantes.
As farsantes.
As militantes.
As vibrantes.

Os avisos.
Os improvisos.
Os indecisos.
Os precisos.

Os bares.
Os lares.
Os luares.
Os mares.

As apaixonadas.
As desprezadas.
As faladas.
As iradas.

As imaginações.
As realizações.
As superações.
As vibrações.

Os gigantes.
Os irrelevantes.
Os meliantes.
Os petulantes.

Os casamentos.
Os momentos.
Os planejamentos.
Os sofrimentos.

As bisonhas.
As enfadonhas.
As risonhas.
As tristonhas.

As controvertidas.
As convertidas.
As divertidas.
As introvertidas.

As chegadas.
As partidas.
Confira no site do João Bosco Leal, clicando neste link:

sábado, 21 de junho de 2014

UM MISSIONÁRIO EM TERRAS DO TIO SAM - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA









Numas das minhas viagens a terras de Santa Cruz, encontrei-me com missionário, que administrava programa religioso, numa emissora de rádio.

Após visita aos estúdios, onde se faziam as gravações, cavaqueamos sobre evangelização, e o melhor forma de levar Cristo ao povo.

A conversa descambou, e passamos a falar da sociedade e mentalidades de povos, quiçá, criada pela mass-media e figuras publicas que vivem em cada país.

Contou-me, então, o sacerdote, a viagem que fizera aos Estados Unidos, a fim de angariar donativos para o programa que mantinha na rádio.

Após contactar pastores e fieis das paróquias, houve membros que solicitaram a passagem pelas residências, para buscar donativos.

Selecionou endereços, por ruas e bairros, e iniciou as visitas.

Para seu espanto, verificou, que na maioria das casas, era recebido de modo semelhante:

Viviam em moradias, colocadas em relvados, ou apartamentos, onde o condomínio prestava os serviços essenciais, ao bom funcionamento do lar.

Ao entrar, encontrava, casal e filhos, descalços, estirados no chão, a ver TV.

Antes que dissesse ao que vinha, o chefe da família, sem se erguer, dizia-lhe para ir ao escritório, abrisse determinada gaveta, e retirasse determinada quantia.

Assim fazia, e espantava-se, ao verificar que na gaveta havia centenas de dólares, em dinheiro vivo.

E concluiu assim a narração:” No Brasil, ninguém, faria o mesmo. Mas os crentes americanos não acreditavam, que sacerdote,  indicado pelo pároco, fosse desonesto.

Em Portugal, por mais santo que fosse o missionário, não havia crente que confiasse, quanto mais a um desconhecido e estrangeiro.

É bem verdade: cada povo, cada nação, tem mentalidades diferentes.

Nos Estados Unidos, os poucos que sonegam impostos, negam, mesmo perante amigos. Em Portugal, e Brasil, quem consegue sonegar ao fisco, não só o faz, como ainda se gaba de o ter feito.

Talvez seja por isso que uns progridem e outros, por maior que sejam as riquezas, não passam de nações de futuro.




HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal



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segunda-feira, 9 de junho de 2014

AVES DE RAPINA - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA









Quando faleceu minha mãe, após meses de tremendo sofrimento, que a levou à cegueira – abandonada pelos médicos, ao verificarem que não havia cura, - meu pai foi recomendado, pela funerária, que pertencia a amigo de meu avô, a retirar objectos pequenos, das salas, que familiares e amigos teriam acesso.

Ajudei-o nessa ingrata tarefa, segurando com fino arame e fio do norte, pinturas e gravuras que se encontravam ao longo da escadaria.

O velho e íntimo amigo de meu avô, era católico e monárquico, de sete costados, em época que era crime grave, ser cristão e adepto do rei deposto. Atrevimento que, algumas vezes, pagava-se com a vida.

Foi igualmente aconselhado a depositar o corpo em capela. Era mais seguro - informaram, - livre de aves de rapina que habitualmente frequentam velórios.

Conselho que recusou. Faltou-lhe coragem de abandonar a mulher, em capela pública, cujas portas encerravam às primeiras horas da madrugada.

Deixou-a no leito, coberta com lençóis do enxoval; sem velas, sem flores, de janelas escancaradas, por onde luminoso sol entrava a rodos.

Amigos, conhecidos e curiosos, subiam as escadas. Penetravam, a medo, no quarto, e ficavam chocados ao verem-na “ dormindo”.

Decorridos minutos, espantados, declaravam: “ Assim não impressiona tanto!….”

Agora devo dizer que não gosto de ir a funerais. Não gosto, porque neles encontra-se o pior que existe nos humanos: hipocrisia, bajulação, ganância, à mistura de frases feitas; e ainda que digam que sentem muito, a maioria não sente nada.

São aves de rapina que rondam carne morta, em busca de interesses.

Familiares existem, que recebem a morte com alívio: ou porque o doente era um estorvo, ou porque finalmente vão receber bens, que muitas vezes, não conseguiram obter com testamentos, procurações e doações….

É a vida! Melhor: é a morte!



HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal



terça-feira, 3 de junho de 2014

A TEOLOGIA DA PROSPERIDADE - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA

 







"Todos buscam as suas próprias coisas,
e não as que são de Jesus Cristo."
           (Fl 2:21)


Graças aos modernos meios de comunicação, o Evangelho foi praticamente difundido em todo o mundo.

Mas, infelizmente, o cristianismo, tendo ganho em quantidade, perdeu, e muito, em qualidade, porque nas últimas décadas surgiram seitas, apelidadas de neopentecostais, que exercem “evangelização” agressiva, baseada em marketing empresarial.

Como se fossem simples estabelecimentos, vendem produtos que vão ao encontro de desejos e interesses dos que amam o mundo: dinheiro, status sociais, fama, sucesso imediato, a troco de ofertas, algumas bem generosas…

Os líderes dessas novas seitas aparecem em programas televisivos, com gestos estudados, como vedetas, como se fossem estrelas de cinema ou ídolos desportivos.

Alguns possuem canais de TV, postos de rádio e jornais e revistas de grande tiragem, quase sempre aparecendo como independentes e generalistas.

São, na realidade, publicações camufladas, ao serviço do líder, que administra o “império” como empresário multinacional.

Possuem aviões, várias residências, e numerosas empresas que vivem à sombra da “Igreja”.

Em regra, tudo, ou quase tudo, encontra-se como propriedade da denominação, para fugirem ao fisco, mas o proveito é próprio.

Há dissimulada concorrência entre os supersacerdotes. Concorrência que se verifica não só em ridicularizar a “fé” dos antagonistas, mas na construção de megatemplos.

O púlpito eletrónico, muito em voga, serve, quantas vezes, para o pastor obter prestígio e dinheiro, e não para difundir a doutrina, como muitos pensam.

Esses “sacerdotes” pululam, já que o “ negócio” vai de vento em popa – parece, o que não é verdade, já não haver quem evangelize ou “cure” de graça!

Infelizmente chegam a contagiar as verdadeiras Igrejas Evangélicas, e até certo clero católico.

Nos seus templos, supermercados de religião, resolvem desde problemas amorosos, a financeiros. Para isso “ vendem”: água, óleos, toalhinhas e até livros… que realizam milagres, que crendeiros e supersticiosos, adquirem e recomendam.

Felizmente nem todos os neopentecostais caiem nesses exageros desonestos - há sempre gente honesta em todo lado, - mas quase todos são excelentes psicólogos e conhecedores de truques eficazes para arrastar multidões e explorarem os simples.

Graças ao Papa Francisco, homem integro, corajoso e humilde, que convive com todos, não fazendo exceções de pessoas e classes, o catolicismo parece estar livre do contágio desses oportunistas – que  servem-se das necessidades do povo para terem melhor vida…, – já que Sua Santidade anda empenhado em reformar a Igreja, aproximando-A dos ideais primitivos.




HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal