segunda-feira, 20 de junho de 2011

Domandu bicicreta

20 de junho de 2011

Por João Bosco Leal

As novas cartilhas do MEC, recolhidas após serem divulgadas pela imprensa, me fizeram lembrar um caso e pensar que se aceitarmos a idiotice do MEC de linguagem popular, brevemente assim será o ensino da Língua Portuguesa em nosso país, onde um ex-presidente já se vangloriou de ser filho de mãe que nasceu analfabeta.


Contava o Zé das Égua: “Num sei contá cumo cumeçô o casu lá ditráis mais o certu é qui o cumpadi Vardemá ganhô uma bicicreta du pograma di rádiu ‘Vóis du Sertão’ e intregaru lá nu sitiu deli.


Ninguém nos arredor nunca nem tinha vistu uma bicha daquela e aí a nuticia si espaiô. Ligerim já tinha uma muntuera di gente nu sitiu dele. O cumpadi tinha tiradu a bicha da cacha e amarro u pescoçu dela num palanqui di aruera pá módi ela num deitá e num i simbora.


Tudu mundu rodiava, oiáva mais u cumpadi num dechava ninguém incostá a mão. Já chegandu a hora di armuçá o povão foi ino imbora e o cumpadi mi chamô prum particulá. Oiando a bicha di perto ele dissi que num si envergunhqava di mi dizê, pu módi nóis era cumpadi, mais eli tava sem sabê u qui fazê caquilu, que já tava véiu i tinha medu di caí dela e si machucá tudu.


Muitu du besta, achando a bicha uma formosura, falei que isso num era pobrema, qui cumu eu era domadô di tropa eu trocava cum ele in trocu da égua que eu tava muntado e qui já tava mansinha di tudu. Até já sabia incostá nu barranco pra modi ele muntá. Dispois di intregá a égua eu fui pegá a tar bicicreta pra i pru patrimonho que ficava umas duas légua du sítiu.


Disatei a bicha du palanqui i já vi um trein diferenti. Num tinha cabresto pá modi eu puxá e eu num quiria muntá cu ela atada, qui era uma vergonha prum domadô profissioná. Oiei, oiei e grudei na oreia dela cu a mão isquerda e cum a direita sigurei naqueli arreim mais sem vergonha que tava nela.


E num é que deu certo? Ela saiu di mansim du meu lado e fumo pru artu do morru, donde a istrada era uma descida só inté na vila e eu já tava mais longi da casa prá modi si caí eu num passá vergonha.


Minim du céu. Quandu sigurei só na oreia dela e pisei nu istribu, a disgraçada negou e eu já bati ca bunda nu chão. E ela deitava di ladu. Eu ia lá, sigurava nas oreia di novu e ela levantava facim, facim, mais era só pô o pé nu istribu e jogá o pesu prá subi qui ela negava di novu. E eu ia pru chão traveis. Foi treis tombu du memu jeito. Era só querê jogá u peso nu istribu, ela negava e eu caia.


Oiei bem, pensei bastanti e agora sigurei nas duas oreia dela e pulei pra cima du arreiu sem pisá nu istribu. Deu certim mais a bicha era ligera dimais sô. Foi só eu sentá e ela dispinguelô istrada abaxo e eu alí, grudado nas oreia num achava uma cana di rédia siqué.


Mais logo intindi qui quandu eu puxava uma oreia prá cá ela virava. Puxava a otra e ela virava pru otro lado qui nem si fosse rédia. Aí já miorô um poquim. Nu meiu da testa a bicha tinha um cucurucuzinho, parecendu um castelinho di testa di vaca môcha e nafrenti daquilu, mais prá baxo eu só via as canelinha dela viranu cada veis mais ligeru na decida e u trem num parava di jeitu nenhum.


Até briava as canela de tão ligeru. Meus ói já tava inté sainu água di tanta a carrera quandu eu inxerguei um areão na frente. Nossinhora e agora?


Cum medu di num controlá u rumu dela só pelas oreia nu areão, puxei a bicha só das direita pru rumu reto da vila e entrei pur dentru du pastu. Nossinhora, foi aí qui o trem fedeu memu pumódi qui agora aqueli arreim ia batenu na bunda sem pelegu nenhum e dava cada cacetada naqueli ossim pur cima du fiofó qui se nem acridita.


Cumecei a chamá tudu meus santu cunhecidu, sanantoim, sanbeneditu, sanjorgi, nossinhora, até jesuiscristu eu chamei mais achu que eles tava tudu ocupadu cuns trem mais importanti e nenhum delis mi podi mi atendê.


Di longi eu vi um cupinzão danadu di grandi sô. E a bicha ia bem no rumim deli. Nessa hora eu já num puxava mais oreia ninhuma. Só tava cuidanu prá módi aqueli arreim disgraçadu num batê cu mais força. E aí u trem ia crescenu, crescenu até qui num tevi jeitu.


Foi uma cacetada qui nem vi direitu cumu vuei pru otru lado du baita. Só sei que meu peitu i minhas parti baxa roçô tudim naqueli cucurucu da testa dela e demorô bastanti pru fôlegu vortá.


Inda bem qui ninguém viu. Mais eu sô temoso i otro dia ainda montu traveiz e domu ela


Das duas uma: ou os governos do Partido dos Trabalhadores – PT não entendem que a educação é o único meio possível para um futuro sólido de um país, ou atitudes como essa e dos diversos projetos do tipo “Bolsa” e “Vale”, que só levam à dependência e submissão, são propositais.


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sexta-feira, 17 de junho de 2011

Os obstáculos e a água


17 de junho de 2011

Por João Bosco Leal

Na internet encontrei uma frase, de autor não informado, que apesar de há muito conhecida, novamente me chamou a atenção: “A água nunca discute com seus obstáculos, apenas os contorna.”


Como tudo o que me chama a atenção ultimamente têm me levado a reflexões, a frase relida agora provocou a realização de uma enorme auto-crítica.


O tipo que não leva troco para casa, não deixa nada sem resposta, pavio-curto e todas as tradicionais descrições do tipo, descrevem bem como sempre me comportei durante a vida.


Depois de refletir bastante cheguei à conclusão que o confronto, que normalmente leva à discordâncias, debates e invariavelmente acaba sem convencimentos, praticamente nunca valeu a pena.


Não me lembro de oportunidade alguma em que a discussão, por qualquer motivo, realmente tenha levado a uma situação de equilíbrio e consenso real sobre o tema em questão.


Pontos de vista, ideologias, propostas e ambições diferentes são comuns entre os seres humanos e não são alterados diante de um simples debate onde algo diferente se apresenta.


Regimes políticos e econômicos, modelos administrativos ainda são discutidos pelos homens sem que haja consenso nem mesmo no caso de redundantes fracassos anteriores.


Apesar de muitos entenderem que toda a unanimidade é burra, penso que burra é toda a generalização, como algumas que já foram tentadas por poucos, a exemplo da tese de superioridade racial.


A unanimidade, o consenso e a generalização ainda não foram possíveis sequer sobre a melhor posição de parto.


Os pensamentos continuam fluindo e me levam a outros questionamentos, como o que me fez passar mais de meio século de vida sem perceber essa simples realidade.


A ousadia, inexperiência e arrogância do jovem que pensa saber tudo, que irá consertar o mundo e todas as outras possibilidades comuns aos pensamentos de quem só a vida ensinará, não me bastaram como justificativa, uma vez que pelo menos cronologicamente há muito já passei -ou deveria ter passado- por essa fase. Deveriam existir outros motivos para minha demora nessa descoberta.


A água contorna a pedra sem que isso signifique o abandono da disputa por aquele espaço. Esse desvio provoca seu polimento, que fica mais leve e é arrastada para a margem, desocupando o espaço antes ocupado e permitindo a passagem da mesma pelo local, mas isso também levou muito tempo.


Com a vida o homem vai percebendo que ousadia, arrogância e pretensões vão sendo diminuídas e que cada vez mais ele precisa abrir caminho para os que já sabem mais, possuem mais pique, preparo ou inteligência e entendo já estar aceitando bem essa idéia que percebo, será muito útil nas poucas décadas que ainda me restam.


Os que viverem por mais tempo terão o privilégio de serem polidos o suficiente para, chegado o momento, permanecerem à margem, sábia e passivamente, vendo a vida passar e ensinando os que querem aprender.


Obstáculos, que de uma maneira ou de outra devemos superar, nos são apresentados durante toda a vida, até o último que, sem solução, nos levará e, portanto, só nos resta decidir ‘como’ serão superados.


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segunda-feira, 13 de junho de 2011

O que já ensinavam nossos avós


13 de junho de 2011

Por João Bosco Leal

Durante minha vida conheci algumas pessoas vencedoras que, partindo do nada, ou praticamente nada, guardadas as devidas proporções, construíram verdadeiros impérios financeiros.


Gosto de me lembrar das algumas como Antonio Ermírio de Moraes, Domingos Ferreira de Medeiros, João Teixeira Filho, Delfina Santos Figueiredo e Laucídio Coelho. Alguns de seus descendentes compartilharam do mesmo tipo de raciocínio e, além de manter, alavancaram aquilo que receberam como herança.


Durante uma entrevista, perguntaram a Antonio Ermírio o que achava de seus filhos se divertirem, saírem à noite, e a resposta foi: “Penso que podem e devem desde que estejam prontos para trabalhar no mesmo horário que eu”, o que, para mim, já dizia o que precisava saber sobre como o maior industrial do país educava seus filhos.


Afastei-me a muitos anos da terra onde nasci e vivia o segundo, Medeirão, motivo pelo qual acabei não sabendo de mais detalhes sobre como seus descendentes deram continuidade a tudo o que ele deixou. Admirado por sua capacidade e tino comercial, às vezes fico sabendo sobre algum grande investimento que continuam fazendo, o que me leva a crer que estão mantendo e provavelmente aumentando o que receberam.


Do terceiro, Seu João, que de imigrante nordestino e arrendatário de terras no interior de São Paulo chegou a ser, juntamente com o irmão José, o maior produtor de algodão do país, e proprietário de inúmeras fazendas, me sobrou, além do exemplo, um grande amigo, seu filho, Newton.


Sobre Delfina não posso falar muito. Sou suspeito, tamanha a admiração que tinha e mantenho por minha avó que, apesar do império construído chegou aos seus últimos dias dirigindo o próprio veículo, de ano e modelo bem mais simples que os possuídos por todos os seus descendentes. Sei que ainda hoje, por qualquer local onde eu ande, pessoas comentam sobre ela com admiração.


Nos últimos trinta e dois anos resido no MS, onde tenho ouvido falar muito do Sr. Laucídio Coelho e pude, durante esse período, acompanhar muitos de seus descendentes, entre os quais, alguns que pude conviver em maior proximidade, como dois de seus filhos, o Dr. Hélio Martins Coelho e Lúdio Coelho e seu genro Antonio Barbosa de Souza.


Da geração dos netos também convivo bastante próximo de com alguns, mas até por bom senso, só gostaria de me referir aos que já não estão mais entre nós, como o José Pinto Costa Neto (Zé do Boi), Edmar Pinto Costa Filho, Kenneth Martin Coelho e José Barbosa de Souza Coelho. Nas três gerações, encontro uma característica comum: todos trabalhavam muito, gastavam bem menos do que ganhavam, e nunca tiveram qualquer tipo de ostentação, motivo pelo qual todos eles eram muito queridos.


Exatamente o que me dizia minha querida avó: “Nunca fui mais sabida do que ninguém, como dizem por aí, simplesmente cuidei para gastar menos do que ganhava.”


Entretanto é comum vermos pessoas que fizeram exatamente o inverso, sempre gastaram mais do que ganharam e agora não se conformam com o patrimônio alheio, chegando a comentar sobre isso, apontando o que fulano possui-como se isso fosse um crime-, sem possuir a coragem de assumir que, se já não tem o que possuía é porque gastou mais do que podia.


Conheço pessoas que já possuíram muitos bens-não por elas construídos, mas que até em sua morte dependerão de outros, pois não tiveram prudência sequer para adquirir o próprio túmulo. E a piedade virá exatamente daquelas que foram por elas criticadas por seu estilo de vida, mas que pouparam, e adquiriram o próprio túmulo.

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sexta-feira, 10 de junho de 2011

Nossas buscas, erros e acertos

Por João Bosco Leal

Durante a vida nos deparamos com diversas encruzilhadas, diante das quais precisamos fazer opções que poderão nos levar à grandeza, se acertarmos, ou a miséria, se errarmos.


As escolhas são realizadas individualmente e nenhuma outra pessoa poderá ser responsabilizada por nossos erros ou acertos, assim como os erros cometidos não significam que deixaremos de acertar em uma próxima escolha.


Os fracassos de ontem não necessariamente impedirão o sucesso futuro, pois estão no passado, e diariamente novas opções nos são apresentadas, permitindo correções de curso, mudanças e acertos.


Não importa o que fez com que aqui chegasse como é, ou está. Isso é passado, que nada têm a ver com o que se pretende conquistar à partir de hoje.


O passado não pode definir como e onde pretendemos chegar, e deixá-lo para trás é fundamental para concentrarmos nossas energias em projetos futuros.


As experiências vividas devem ser aproveitadas como lições, de como e onde erramos ou acertamos, mas nada do que já ocorreu pode ser mudado.


Começando cada dia como uma folha em branco poderemos, a cada manhã, tomar iniciativas necessárias para transformar nossos sonhos em realidade, nela desenhando uma nova vida.


Milhares de novas direções poderão ser tomadas e as novas escolhas serão as responsáveis por conseguirmos ou não as mudanças desejadas.


Algumas dessas direções poderão resultar em acidentes e limitações, que exigirão novas escolhas, mas não impedirão a continuidade da busca.


Todos possuem algumas limitações, físicas ou mentais, mas também potenciais e a superação dessas limitações impede que elas prejudiquem nosso potencial.


Precisamos estar sempre, ainda que inconscientemente, corrigindo erros do passado, buscando agora acertar e mesmo que isso não ocorra nas primeiras tentativas, estaremos galgando novos degraus, aprendendo mais e na próxima vez certamente erraremos menos.


Com essas tentativas vamos alcançando posições mais altas na pirâmide da vida e quanto mais alto mais distante conseguimos ver, o que facilita novas decisões que agora, com a visão mais ampla, são tomadas com menos chances de erros.


Nada disso é possível porém, para aqueles que não possuem a humildade de, mesmo que com dificuldades, se levantarem após cada queda, e tentar uma nova caminhada.


As perguntas e questionamentos são fundamentais para aqueles que pretendem evitar os mesmos erros já cometidos por outros.


A vida não é e nunca será feita exclusivamente de acertos, mas a busca incansável destes é uma virtude daquele que vencerá.


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terça-feira, 7 de junho de 2011

Amadurecimento


6 de junho de 2011

Por João Bosco Leal

Desde minha juventude sempre ouvia dizer as mais variadas coisas sobre a maturidade e a velhice, que para mim -e para muitos com quem converso atualmente-, era quando uma pessoa tinha por volta dos quarenta anos.


O tempo passou e só depois de já haver passado pelos quarenta há muitos anos é que me senti plenamente na maturidade, notando isso em meu próprio corpo, o que também me confirmam os mesmos que pensavam como eu.


Com menos agilidade e os reflexos mais lentos, deixamos de correr para alcançar o que corre à nossa frente. Por trás podemos observar os tropeços enfrentados por eles, nos desviar, e nossa caminhada passa a ocorrer com maior segurança.


Essas observações passam a ter muita importância e agora concordamos com os mais velhos, que observando e estudando o passado, não precisamos passar pelas mesmas dificuldades e tropeços que outros já passaram.


Nossos planos e projetos passam a ser para um prazo mais longo, com menos pressa, mais calculados, diminuindo muito os riscos que antes corríamos sem nos importar.


Começamos a nos fixar em centenas de coisas, desde marcas de produtos alimentícios a mecânicos de nossos carros, estabelecendo uma relação de confiança agora muito importante.


Dificilmente mudamos os lugares que frequentamos, como supermercados e restaurantes, pois já os conhecemos, e não estamos dispostos a muitas experiências novas.


A importância que no passado demos a muitas coisas agora nos parece até ridícula, pela insignificância que hoje possuem em nossas prioridades.


Deixamos de ser tão críticos em relação às outras pessoas, passando a perceber as suas e as nossas próprias limitações, físicas, culturais e mentais.


As companhias que buscamos deixam de ser as que nos satisfaçam momentaneamente, seja comercial ou fisicamente, para serem aquelas que participarão de nossos planos e projetos futuros, de maior duração, quando há maior confiança e cumplicidade.


Nossos amigos são os que compartilham os mesmos hábitos e ideais, com os quais dividimos alegrias e dificuldades, contamos com seu apoio e retribuímos da mesma forma.


A convivência com nossos descendentes passa a ter bem mais importância, planejamos e realizamos viagens com maior frequência e nos dedicamos mais à literatura e à história.


É uma nova vida, muito mais plena, com mais buscas por prazeres emocionais, culturais, do que as ambições materiais anteriores.


A vida é tão perfeita que não arrisca permitir a um jovem, com toda sua agilidade e energia, saber o que só agora na maturidade percebemos plenamente.


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