terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Vamos dançar - Por João Bosco Leal*

Os jovens normalmente são muito afoitos em tudo. Quando descobrem os prazeres provocados pela carne, então, são insaciáveis. Parece que o mundo acabará no dia seguinte e sua necessidade de aproveitar ao máximo esses prazeres - e com o maior número possível de pessoas -, chega a ser indescritível. 

Com os anos, vão percebendo que muito do que pensavam ser um prazer, na realidade não foi tanto assim e, depois de ocorrido, muitas vezes pode até provocar uma série de problemas, físicos, de saúde, psicológicos, de repulsa pelo outro ou um enorme arrependimento por ter ocorrido. 

Muitas pessoas que pensavam ser de determinada maneira não o eram. Física, mental, cultural ou moralmente, elas eram um espécie de lixo humano. Mas aí tudo já havia ocorrido e só restava o arrependimento, que muitas vezes perdurará pelo resto da vida, pois em alguns casos elas continuarão próximas, presentes, ou ao menos conhecidas de conhecidos.

Poderão, indefinidamente, fazer comentários maldosos a seu respeito, dizer coisas que ocorreram e outras que não. E só depois de passar por experiências negativas como essas, o jovem começará a perceber que a entrega física a um parceiro ou parceira é algo muito importante para ocorrer com qualquer um. 

Os mais velhos - que já passaram ou viram muitas pessoas passar por diversos problemas ou constrangimentos por terem se relacionado com muitos ou com qualquer um -, sabem que essa entrega física só deveria ocorrer com alguém que realmente valha a pena, não só fisicamente, mas quando for uma pessoa que possua outras qualidades como princípios éticos, moral, e dignidade. 

Sem esse conjunto de atributos, as entregas quase que certamente causarão muito mais arrependimentos que saudades. Entretanto, quando o envolvimento e a entrega, ocorre com alguém com essas características, percebe-se que a espera foi gratificante e que, agora sim, a pessoa vale a pena. 

Aqueles com maior idade, mas que por um motivo ou outro acabaram se casando muito jovens e depois de determinado tempo, por separação ou viuvez encontram-se novamente solteiros - tenho um amigo vivenciando isso -, também passam por essa fase de "liberdade" e, principalmente, por uma busca alucinada por novas experiências de satisfações físicas. 

Mas logo perceberão que isso também não vale a pena, que aquele prazer físico é muito rápido, pouco duradouro e nada construirá. Muito pelo contrário, certamente ocorrerão as mesmas experiências negativas, de arrependimento, de asco pelas pessoas erradas e riscos desnecessários. 

Claro que todos possuem seus defeitos, mas em sua grande maioria, eles têm origem no fato de estarem sós, longe da pessoa que desejam. Passei mais de meio século para encontrar alguém que, ao fim do dia, me provocasse ter vontade de voltar para casa e sempre imaginei que quando esse encontro ocorresse, não poderia, em hipótese alguma, ou por qualquer motivo, ser desperdiçado. 

Entretanto, ao encontra-la, por mais que eu tente, lhe explique que ela é quem busquei por toda a vida, suas dúvidas, questionamentos e os disse-me-disse, não permitem que ela comigo viva esse amor. 

Todos viveriam muito melhor se deixassem de lado a grande maioria das opiniões alheias, suas dúvidas e questionamentos para, diante da pessoa que desejam, dizer: Eu cuido de você e você cuida de mim. Não desisto de você e nem você de mim. 

Entretanto, só sou normal até ouvir tocar minha música favorita. Portanto, deixe tudo de lado e venha dançar. 

João Bosco Leal*     
*Jornalista e empresário

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Trajetórias - Por João Bosco Leal*



 Muitas vezes sinuosa e outras retilínea, a trajetória de nossas vidas é repleta de mudanças não planejadas ou inesperadas.

Talvez por medo desses acontecimentos não previstos, "... os homens avançam sempre por caminhos traçados por outros homens e dirigem seus atos com base na imitação,...", diz Maquiavel em seu livro O Príncipe, e completa: "... o homem prudente deverá constantemente seguir o itinerário percorrido pelos grandes e imitar aqueles que se mostraram excepcionais...".

Entretanto, ainda no mesmo livro, o autor diz: "Assim, fora necessário que Moisés encontrasse o povo de Israel escravizado e oprimido pelos egípcios para que este, buscando dar fim à sua escravidão, dispusesse-se a segui-lo". 

Moisés era um Semita da Tribo de Levi, filho de Anrão e Joquebede, que foi encontrado por Hatshepsut, filha do Faraó Ramsés II, boiando em uma cesta quando esta tomava banho no rio. Solteira, ela pediu a uma de suas servas - justamente Joquebede -, que a ajudasse a criá-lo e anos depois o adotou oficialmente: "Sendo o menino já grande, ela o trouxe à filha de Faraó, a qual o adotou por filho, e lhe chamou Moisés, dizendo: Porque das águas o tirei" (Êxodo 2:10).

Aos 40 anos, já sabendo que não era filho legítimo do Faraó e após ter matado um feitor egípcio, ele é obrigado a partir para exílio, a fim de escapar da pena de morte. Fixa-se então na região montanhosa de Midiã, situada a leste do Golfo de Aqaba.

Posteriormente tornou-se o encarregado da construção de novos palácios, construídos em novas terras que o Faraó se apossara ou tomara em guerras, mas não concordando com a maneira que os egípcios tratavam os hebreus - seus escravos que trabalhavam nessas construções -, rebelou-se contra isso e, por quarenta anos, guiou o povo de Israel para a Terra Prometida.

Esse povo, composto de centenas de tribos seguia aquele que os libertara da escravidão rumo ao que, para eles, era totalmente desconhecido. Era uma nova trajetória, uma opção, provocada pela necessidade, mas uma escolha.

Assim como todas essas tribos, todos podem seguir alguém ou escolher o próprio caminho, já conhecido, desconhecido, ou mesmo permanecer do mesmo modo, sem alterar em nada a vida que levam.

Caminhar pode provocar bolhas nos pés, tropeços, quedas, mas os que se levantam e continuam, notarão que as feridas serão curadas, os pés e o corpo se acostumarão e certamente atingirão um local desconhecido para os que lá chegam.

Durante a vida, na trajetória escolhida por cada um, pessoas e locais são conhecidos, algumas ou até mesmo raras amizades e inimizades são criadas, mas sempre algo novo, inesperado ou surpreendente, ocorrerá. O que não se deve é acovardar-se, ter medo do inesperado e permanecer em situações que não lhe proporcionarão mudanças, crescimento.

As quedas fazem parte da vida e do nosso aprendizado. Cair dói principalmente no orgulho, e mais ainda, quando outras pessoas estão envolvidas. Entretanto, humilhante mesmo não é cair, mas permanecer no chão enquanto a vida continua.

Nossos enganos, quedas ou perdas não devem ser lamentados, pois o mundo não acaba quando isso ocorre. No máximo, eles nos ensinam que devemos mudar nossa trajetória, aprender com nossos erros e acertos.

*Jornalista, escritor e empresário

FUTEBOL: UM MUNDO À PARTE - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA




 O Anuário de Futebol Português e Europeu - 1983/4, publicou texto de Marcelo Rebelo de Sousa, equiparando a política ao Futebol:” Aos seis anos era entusiasta de bancada. Aos 10 começaria a sê-lo no relvado. Aos 25 anos era director da Federação Portuguesa de Futebol. 

Em tantas e diversas experiências não encontrei nada (nem mesmo o jornalismo) que se parecesse com a política do que o Futebol.”

Por serem tão semelhantes é que nunca ouvi político criticar o desgoverno de clubes desportivos e os escandalosos vencimentos que treinadores e jogadores recebem. Se Primeiro-ministro contratasse, por milhões, economista famoso, capaz de equilibrar as contas públicas e colocar o país ao nível das mais adiantadas nações do mundo, caía o Carmo e a Trindade. 

A oposição bradaria: que havia crianças com fome e famílias na miséria. Era desrespeito com o povo, pagar milhões a um ministro! Mas se o clube paga seis milhões ou mais, não há da direita à esquerda quem proteste. Medo? Não. Sabem que se arriscavam a perder as eleições.

As línguas palradoras emudecem quando o assunto é dinheiro do Futebol!

A esquerda pronta a criticar o capitalismo, os empresários e vencimentos doirados de gestores, calam-se perante milhões e biliões de euros que o mundo desportivo movimenta.

Salazar – o mais inteligente político português do século XX, – sabia perfeitamente o poder do Futebol, para adormecer e desviar o povo dos reais problemas da nação.

Apelidaram-no até como o homem de três “F’s” – Futebol, Fátima e Fado.

O Futebol continua, e com mais força com a chegada da democracia. Fátima é tolerada, por respeito à fé do povo. O fado, depois de silenciado – ainda não descobri a razão, – renasceu ao ser considerado património mundial.

Os Mundiais de Futebol, são, em regra, desastrosos para a economia das nações que os realizam. Mesmo assim são disputadíssimos pelos países! …

É mais fácil construírem estádios, que hospitais e pronto-socorro… e até escolas!

O político, no poder, precisa, como os Césares de Roma, divertir o Povo.

O Imperador Romano tinha o circo. O Coliseu, com espectáculos degradantes. O político actual – da direita à esquerda, – anestesia o povo com futebol e Carnaval.

Com tambores, fanfarras e “guerrinhas” desportivas, o poder divertem e governam ou desgovernam. Por vezes até os “amigos” se governam…



HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal


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sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O tempo e as escolhas - Por João Bosco Leal*




Quando crianças, além do tentar caminhar, um dos maiores desafios de todos é a formação das primeiras palavras e das primeiras frases, com as quais nos comunicaremos pelo resto de nossas vidas.

Nos primeiros anos, tudo é diversão, brincadeira. Além da alfabetização, que já parece ser uma responsabilidade enorme, ninguém quer ter qualquer outra. Só as brincadeiras e passeios com os amigos da escola são importantes.

Na juventude descobrimos as sensações e os sentimentos, tanto os prazeirosos quanto os dolorosos. É também quando começamos a perceber que a vida nos exigirá estudos, trabalho e responsabilidades, sem os quais nosso futuro será pouco promissor.

Quando adultos, temos muitos sonhos, projetos, vontades, esperanças e ambições. No futuro só vislumbramos o sucesso, o que conseguiremos, até onde chegaremos e como seremos vitoriosos. A grande maioria imagina, inclusive, que todos admirarão seu sucesso.

Na maturidade, enxergamos a realidade, o que a vida dá e o que ela cobra. Percebemos claramente a diferença entre o que quando adultos projetávamos e o que realmente coseguimos realizar. Alguns projetos sofreram alterações, outros foram deixados de lado ou substituídos por diferentes. Muita coisa mudou.

Nesta etapa, tudo vai ficando muito simples, a ponto de, às vezes, nos assustarmos de quanto estamos mudando. Olhamos para nossos armários e vemos roupas que nem lembravamos que existiam.

Nas gavetas do criado mudo encontramos produtos que nem sabemos para que servem, ou porque estão ali. Vamos perdendo muitas das nossas necessidades anteriores, reduzindo as roupas nos armários, os calçados, as malas, enfim, a bagagem.

Durante muitos anos, demos excessiva importância à opinião dos outros, elas nos incomodavam muito. Agora, são realmente dos outros e, mesmo que sobre nós, são exclusivamente deles, não tem a menor importância.

Por mais que sintamos grande afinidade ou mesmo que delas gostemos, deixamos de buscar a companhia das pessoas que não buscam a nossa. Não nos farão diferença, pois já aprendemos que só vale a pena estar ao lado de quem também quer estar do nosso.

No mais das vezes, não há como desfazer aquilo que já está feito, mas a vida sempre nos permite fazer de novo, de uma outra maneira, sem incidir nos mesmos erros do passado.

Os planos de futuro deixam de ser para amanhã. Passamos a querer viver o hoje, pois sabemos que o amanhã pode não existir e isso nos torna mais leves, tranquilos, com muito menos preocupações.

Os debates em busca de quem tem razão normalmente só causam mal estar entre as pessoas e, por isso, aprendemos a deixar de ter certezas, o que não nos faz a menor falta.

Os julgamentos, antes realizados com muita facilidade, também vão deixando de existir, pois não existe a certeza absoluta, mas sim as opções de vida escolhidas por cada um.

Constatamos, em nossa própria vida, a realidade do que muitos já haviam escrito ou mesmo nos dito: "Cada um é o resultado de seu passado".

Só o tempo ensina que seremos cada dia mais felizes escolhendo fazer somente o que alegra o nosso coração.

*Jornalista, escritor e empresário

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Caminhos inexplorados - Por João Bosco Leal*


 
 É muito comum a tendência de só trilharmos por caminhos conhecidos, já experimentados por outras pessoas, pois assim deixamos de cair onde outros já caíram ou sofrer o que já foi sofrido por alguém. 

Esse é o caminho mais fácil a ser seguido para aqueles que não querem correr riscos, principalmente financeiros. Raros são os que se arriscam a investir seu patrimônio - ou mesmo parte dele - em algo ainda não experimentado por outros. 

Entretanto, isso nos torna mais um na multidão, sem perspectivas de conhecer ou criar algo novo, realmente diferente. Só os que saíram das trilhas comuns foram capazes de repensar, viver, provar e criar coisas totalmente desconhecidas. 

Provavelmente todos já sonharam em ter uma ideia revolucionária, que mudasse algo e ainda rendesse muito dinheiro, mas aqueles que realmente podem ser chamados de inventores estão sempre pensando além do seu tempo, procurando maneiras de tornar atividades corriqueiras mais práticas e muitas vezes essa busca é tão intensa que alguns nem se preocupam ou não conseguem se beneficiar financeiramente de seu invento. 

Em 1947, depois de ser ferido durante a segunda guerra mundial e ter de ficar um tempo no hospital, o soldado Mikhail Kalashnikov, da então União Soviética, aproveitou seu tempo para projetar uma das melhores armas de combate já criadas, a AK-47. Com mais de 100 milhões de rifles circulando por aí, Kalashnikov deveria estar na lista dos homens mais ricos do mundo. 

Tudo o que o soldado recebeu foi um bônus de agradecimento pelos serviços prestados, pois o governo comunista não pagava os "inventores" na época em que a arma foi criada. Cinquenta e dois anos depois, em 1999, a Izhevsk Machine Shop conseguiu patentear a arma e Mikhail deixou de ganhar centenas de bilhões com o seu projeto. 

Todos os homens que deixaram marcas na história da humanidade, promovendo profundas alterações no comportamento de todos os que os sucederam - como Alberto Santos Dumont com seu Hangar com portas de correr, o avião e o ultraleve; Alexander Graham Bell com seu telefone e o alto falante; Alfred Nobel com sua dinamite; Denis Papin e sua panela de pressão; Ferdinand Carré e o refrigerador; Henry Ford com a linha de produção em série; Thomas Edison com a lâmpada elétrica, o fonógrafo e a iluminação elétrica e, atualmente, Ivan Getting com seu fantástico GPS e Bill Gates e Steve Jobs com seus sistemas operacionais -, foram pessoas que repensaram, inventaram, e, com isso, transformaram o modo de vida de bilhões de pessoas. 

Como dizia Malcolm Muggeridge, "Não se esqueça de que apenas os peixes mortos nadam a favor da corrente".

Um caminho sem curvas, desvios ou obstáculos, sempre será o mais seguro e confortável, mas certamente não levará a um lugar que proporcionará novas descobertas. Os caminhos já traçados, só nos levam a lugares onde outros já estiveram. 

Em todas as áreas, sejam elas políticas, econômicas ou sociais, para que algo seja mudado é necessário que ele seja repensado, questionado, até que surjam ideias que possibilitem sua alteração ou uma nova criação, um novo modelo. 

Só correndo riscos e enfrentando caminhos ainda inexplorados, podemos mudar nosso destino e criar algo desconhecido, realmente novo.

* Jornalista, escritor e empresário

segunda-feira, 11 de maio de 2015

GREVE: ARMA DO POVO ? - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA


  
A greve é um direito indiscutível do trabalhador, que ninguém de bom senso pode contestar. Mas a greve deve ser a última arma que o sindicato deve usar.

Só depois das “ conversações”, dos “acordos”, das “cedências”, é que deve ser apresentado o pré-aviso de greve.

No entanto todos sabemos – e não vale a pena negar, – que muitas greves são políticas, o único fim é obter dividendos para partidos.

Também há greves, por serem cirúrgicas, prejudicam os mais necessitados, aqueles que não possuem recursos para adquirirem viatura própria.

Quando os Caminho-de-ferro paralisam na véspera de Natal ou na Páscoa, a greve prejudica a empresa, mas igualmente os pobres, que, por não terem viatura própria são impedidos de passar as quadras festivas juntos da família.

Os ricos, os remediados, possuem automóvel e nada os incomoda que os comboios estejam em greve.

Os ricos, quando visitam familiares, que vivem no interior, raras vezes utilizam o comboio, porque é norma, ao regressarem, virem bem fornecidos de produtos agrícolas, que só a viatura própria pode trazer, sem incómodo.

A respeito da greve dos pilotos da TAP, amigo meu, saiu-se com esta: “ Em regra, as greves, sem motivo ou motivos fúteis, só são feitas por quem tem ordenados altos…”

Não chego a tanto; mas parar os transportes públicos em dias festivos, impedindo que os pobres não possam consoar com os pais e avós, ou os impeça de conviverem na época Pascal, parece-me afronta a quem tem salário ou pensão insignificante.

Sei que vivemos num mundo cão – que me desculpem os cachorros, que são, em regra, mais compreensivos e dedicados que os humanos, – cada um, cada classe, olha apenas para seus interesses, ficando indiferente com o bem-estar e necessidade do semelhante.

Se assim continuar, os pobres, o povo, começa a pensar que a melhor conquista que se obteve, que foi a liberdade e o direito à greve, não passou de engodo, visto – parecer, – estar ao serviço dos ricos e poderosos.



HUMBERTO PINHO DA SILVA - Porto, Portugal


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sexta-feira, 3 de abril de 2015

A LIBERDADE E A CENSURA - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA






No final dos anos setenta, em época em que se vivia plena diarreia política, e sobrepunha-se o ódio, à razão, acompanhei meu pai à tipografia de pequeno periódico, cujo director era amigo de longa data.

A conversa, caiu, como não podia deixar de ser, na política, e descambou para liberdade e censura.

Foi então que o Vilarandelo de Morais, homem modesto, mas excelente orador, capaz de animar uma assembleia de homens cultos, declarou, enquanto mostrava a pequena tipografia:

- “ Tinha mais tranquilidade outrora, quando havia sensores e tinha que levar as provas à censura. Cortavam frases, títulos, e por vezes textos inteiros, de crónicas de opinião e artigos…Depois, tinha que improvisar, à pressa, fotografias ou notícias, para tapar buracos…”

Meu pai, pensativo, sacudia a cabeça em atitude de quem esperava o desenrolar da conversa.

- “ “ Após a Revolução dos Cravos – continuou, – tudo mudou. Publicava o que queria e dizia o que desejava…Chegavam os textos e escarrapachava tudo… Mas o pior foi depois…Veja: tive que ir ao tribunal por ter transcrito crónica de jornal de grande circulação. Vi-me grego para sair-me bem…”

- “ Agora sou eu que censuro os textos. Faço com severidade. Os matutinos de grande tiragem têm dinheiro e têm advogados… Mas os pequenos? Como posso manter demanda com poderosos? É o fim…”

E enquanto mostrava engenhoca, semelhante a máquina de escrever, que imprimia no zinco letras, rematou:

- “ Agora, se quero viver sossegado, não posso dizer o que quero nem permitir que os colaboradores digam o que desejam. O pequeno jornal vive de assinaturas, e principalmente de anúncios do comércio e indústria local. Tem-se que contar as moedas para comprar papel…Qualquer deslize…qualquer desabafo, pode ser a ruína da empresa.”

Ao lembrar-me desta conversa, com quase quarenta anos, lembrei-me o que disse socialista francês de meados do séc. XlX - citado por Fina d’Armada, cujo nome a autora não se recordava, in “ O Comércio do Porto”, a 21/03/97 - “ Para ele, a única liberdade real que existia (na democracia) era a liberdade do forte oprimir o fraco.”



HUMBERTO PINHO DA SILVA - Porto, Portugal



publicado por solpaz às 19:55
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