quarta-feira, 25 de novembro de 2015

FUTEBOL: UM MUNDO À PARTE - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA




 O Anuário de Futebol Português e Europeu - 1983/4, publicou texto de Marcelo Rebelo de Sousa, equiparando a política ao Futebol:” Aos seis anos era entusiasta de bancada. Aos 10 começaria a sê-lo no relvado. Aos 25 anos era director da Federação Portuguesa de Futebol. 

Em tantas e diversas experiências não encontrei nada (nem mesmo o jornalismo) que se parecesse com a política do que o Futebol.”

Por serem tão semelhantes é que nunca ouvi político criticar o desgoverno de clubes desportivos e os escandalosos vencimentos que treinadores e jogadores recebem. Se Primeiro-ministro contratasse, por milhões, economista famoso, capaz de equilibrar as contas públicas e colocar o país ao nível das mais adiantadas nações do mundo, caía o Carmo e a Trindade. 

A oposição bradaria: que havia crianças com fome e famílias na miséria. Era desrespeito com o povo, pagar milhões a um ministro! Mas se o clube paga seis milhões ou mais, não há da direita à esquerda quem proteste. Medo? Não. Sabem que se arriscavam a perder as eleições.

As línguas palradoras emudecem quando o assunto é dinheiro do Futebol!

A esquerda pronta a criticar o capitalismo, os empresários e vencimentos doirados de gestores, calam-se perante milhões e biliões de euros que o mundo desportivo movimenta.

Salazar – o mais inteligente político português do século XX, – sabia perfeitamente o poder do Futebol, para adormecer e desviar o povo dos reais problemas da nação.

Apelidaram-no até como o homem de três “F’s” – Futebol, Fátima e Fado.

O Futebol continua, e com mais força com a chegada da democracia. Fátima é tolerada, por respeito à fé do povo. O fado, depois de silenciado – ainda não descobri a razão, – renasceu ao ser considerado património mundial.

Os Mundiais de Futebol, são, em regra, desastrosos para a economia das nações que os realizam. Mesmo assim são disputadíssimos pelos países! …

É mais fácil construírem estádios, que hospitais e pronto-socorro… e até escolas!

O político, no poder, precisa, como os Césares de Roma, divertir o Povo.

O Imperador Romano tinha o circo. O Coliseu, com espectáculos degradantes. O político actual – da direita à esquerda, – anestesia o povo com futebol e Carnaval.

Com tambores, fanfarras e “guerrinhas” desportivas, o poder divertem e governam ou desgovernam. Por vezes até os “amigos” se governam…



HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal


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sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O tempo e as escolhas - Por João Bosco Leal*




Quando crianças, além do tentar caminhar, um dos maiores desafios de todos é a formação das primeiras palavras e das primeiras frases, com as quais nos comunicaremos pelo resto de nossas vidas.

Nos primeiros anos, tudo é diversão, brincadeira. Além da alfabetização, que já parece ser uma responsabilidade enorme, ninguém quer ter qualquer outra. Só as brincadeiras e passeios com os amigos da escola são importantes.

Na juventude descobrimos as sensações e os sentimentos, tanto os prazeirosos quanto os dolorosos. É também quando começamos a perceber que a vida nos exigirá estudos, trabalho e responsabilidades, sem os quais nosso futuro será pouco promissor.

Quando adultos, temos muitos sonhos, projetos, vontades, esperanças e ambições. No futuro só vislumbramos o sucesso, o que conseguiremos, até onde chegaremos e como seremos vitoriosos. A grande maioria imagina, inclusive, que todos admirarão seu sucesso.

Na maturidade, enxergamos a realidade, o que a vida dá e o que ela cobra. Percebemos claramente a diferença entre o que quando adultos projetávamos e o que realmente coseguimos realizar. Alguns projetos sofreram alterações, outros foram deixados de lado ou substituídos por diferentes. Muita coisa mudou.

Nesta etapa, tudo vai ficando muito simples, a ponto de, às vezes, nos assustarmos de quanto estamos mudando. Olhamos para nossos armários e vemos roupas que nem lembravamos que existiam.

Nas gavetas do criado mudo encontramos produtos que nem sabemos para que servem, ou porque estão ali. Vamos perdendo muitas das nossas necessidades anteriores, reduzindo as roupas nos armários, os calçados, as malas, enfim, a bagagem.

Durante muitos anos, demos excessiva importância à opinião dos outros, elas nos incomodavam muito. Agora, são realmente dos outros e, mesmo que sobre nós, são exclusivamente deles, não tem a menor importância.

Por mais que sintamos grande afinidade ou mesmo que delas gostemos, deixamos de buscar a companhia das pessoas que não buscam a nossa. Não nos farão diferença, pois já aprendemos que só vale a pena estar ao lado de quem também quer estar do nosso.

No mais das vezes, não há como desfazer aquilo que já está feito, mas a vida sempre nos permite fazer de novo, de uma outra maneira, sem incidir nos mesmos erros do passado.

Os planos de futuro deixam de ser para amanhã. Passamos a querer viver o hoje, pois sabemos que o amanhã pode não existir e isso nos torna mais leves, tranquilos, com muito menos preocupações.

Os debates em busca de quem tem razão normalmente só causam mal estar entre as pessoas e, por isso, aprendemos a deixar de ter certezas, o que não nos faz a menor falta.

Os julgamentos, antes realizados com muita facilidade, também vão deixando de existir, pois não existe a certeza absoluta, mas sim as opções de vida escolhidas por cada um.

Constatamos, em nossa própria vida, a realidade do que muitos já haviam escrito ou mesmo nos dito: "Cada um é o resultado de seu passado".

Só o tempo ensina que seremos cada dia mais felizes escolhendo fazer somente o que alegra o nosso coração.

*Jornalista, escritor e empresário

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Caminhos inexplorados - Por João Bosco Leal*


 
 É muito comum a tendência de só trilharmos por caminhos conhecidos, já experimentados por outras pessoas, pois assim deixamos de cair onde outros já caíram ou sofrer o que já foi sofrido por alguém. 

Esse é o caminho mais fácil a ser seguido para aqueles que não querem correr riscos, principalmente financeiros. Raros são os que se arriscam a investir seu patrimônio - ou mesmo parte dele - em algo ainda não experimentado por outros. 

Entretanto, isso nos torna mais um na multidão, sem perspectivas de conhecer ou criar algo novo, realmente diferente. Só os que saíram das trilhas comuns foram capazes de repensar, viver, provar e criar coisas totalmente desconhecidas. 

Provavelmente todos já sonharam em ter uma ideia revolucionária, que mudasse algo e ainda rendesse muito dinheiro, mas aqueles que realmente podem ser chamados de inventores estão sempre pensando além do seu tempo, procurando maneiras de tornar atividades corriqueiras mais práticas e muitas vezes essa busca é tão intensa que alguns nem se preocupam ou não conseguem se beneficiar financeiramente de seu invento. 

Em 1947, depois de ser ferido durante a segunda guerra mundial e ter de ficar um tempo no hospital, o soldado Mikhail Kalashnikov, da então União Soviética, aproveitou seu tempo para projetar uma das melhores armas de combate já criadas, a AK-47. Com mais de 100 milhões de rifles circulando por aí, Kalashnikov deveria estar na lista dos homens mais ricos do mundo. 

Tudo o que o soldado recebeu foi um bônus de agradecimento pelos serviços prestados, pois o governo comunista não pagava os "inventores" na época em que a arma foi criada. Cinquenta e dois anos depois, em 1999, a Izhevsk Machine Shop conseguiu patentear a arma e Mikhail deixou de ganhar centenas de bilhões com o seu projeto. 

Todos os homens que deixaram marcas na história da humanidade, promovendo profundas alterações no comportamento de todos os que os sucederam - como Alberto Santos Dumont com seu Hangar com portas de correr, o avião e o ultraleve; Alexander Graham Bell com seu telefone e o alto falante; Alfred Nobel com sua dinamite; Denis Papin e sua panela de pressão; Ferdinand Carré e o refrigerador; Henry Ford com a linha de produção em série; Thomas Edison com a lâmpada elétrica, o fonógrafo e a iluminação elétrica e, atualmente, Ivan Getting com seu fantástico GPS e Bill Gates e Steve Jobs com seus sistemas operacionais -, foram pessoas que repensaram, inventaram, e, com isso, transformaram o modo de vida de bilhões de pessoas. 

Como dizia Malcolm Muggeridge, "Não se esqueça de que apenas os peixes mortos nadam a favor da corrente".

Um caminho sem curvas, desvios ou obstáculos, sempre será o mais seguro e confortável, mas certamente não levará a um lugar que proporcionará novas descobertas. Os caminhos já traçados, só nos levam a lugares onde outros já estiveram. 

Em todas as áreas, sejam elas políticas, econômicas ou sociais, para que algo seja mudado é necessário que ele seja repensado, questionado, até que surjam ideias que possibilitem sua alteração ou uma nova criação, um novo modelo. 

Só correndo riscos e enfrentando caminhos ainda inexplorados, podemos mudar nosso destino e criar algo desconhecido, realmente novo.

* Jornalista, escritor e empresário

segunda-feira, 11 de maio de 2015

GREVE: ARMA DO POVO ? - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA


  
A greve é um direito indiscutível do trabalhador, que ninguém de bom senso pode contestar. Mas a greve deve ser a última arma que o sindicato deve usar.

Só depois das “ conversações”, dos “acordos”, das “cedências”, é que deve ser apresentado o pré-aviso de greve.

No entanto todos sabemos – e não vale a pena negar, – que muitas greves são políticas, o único fim é obter dividendos para partidos.

Também há greves, por serem cirúrgicas, prejudicam os mais necessitados, aqueles que não possuem recursos para adquirirem viatura própria.

Quando os Caminho-de-ferro paralisam na véspera de Natal ou na Páscoa, a greve prejudica a empresa, mas igualmente os pobres, que, por não terem viatura própria são impedidos de passar as quadras festivas juntos da família.

Os ricos, os remediados, possuem automóvel e nada os incomoda que os comboios estejam em greve.

Os ricos, quando visitam familiares, que vivem no interior, raras vezes utilizam o comboio, porque é norma, ao regressarem, virem bem fornecidos de produtos agrícolas, que só a viatura própria pode trazer, sem incómodo.

A respeito da greve dos pilotos da TAP, amigo meu, saiu-se com esta: “ Em regra, as greves, sem motivo ou motivos fúteis, só são feitas por quem tem ordenados altos…”

Não chego a tanto; mas parar os transportes públicos em dias festivos, impedindo que os pobres não possam consoar com os pais e avós, ou os impeça de conviverem na época Pascal, parece-me afronta a quem tem salário ou pensão insignificante.

Sei que vivemos num mundo cão – que me desculpem os cachorros, que são, em regra, mais compreensivos e dedicados que os humanos, – cada um, cada classe, olha apenas para seus interesses, ficando indiferente com o bem-estar e necessidade do semelhante.

Se assim continuar, os pobres, o povo, começa a pensar que a melhor conquista que se obteve, que foi a liberdade e o direito à greve, não passou de engodo, visto – parecer, – estar ao serviço dos ricos e poderosos.



HUMBERTO PINHO DA SILVA - Porto, Portugal


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sexta-feira, 3 de abril de 2015

A LIBERDADE E A CENSURA - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA






No final dos anos setenta, em época em que se vivia plena diarreia política, e sobrepunha-se o ódio, à razão, acompanhei meu pai à tipografia de pequeno periódico, cujo director era amigo de longa data.

A conversa, caiu, como não podia deixar de ser, na política, e descambou para liberdade e censura.

Foi então que o Vilarandelo de Morais, homem modesto, mas excelente orador, capaz de animar uma assembleia de homens cultos, declarou, enquanto mostrava a pequena tipografia:

- “ Tinha mais tranquilidade outrora, quando havia sensores e tinha que levar as provas à censura. Cortavam frases, títulos, e por vezes textos inteiros, de crónicas de opinião e artigos…Depois, tinha que improvisar, à pressa, fotografias ou notícias, para tapar buracos…”

Meu pai, pensativo, sacudia a cabeça em atitude de quem esperava o desenrolar da conversa.

- “ “ Após a Revolução dos Cravos – continuou, – tudo mudou. Publicava o que queria e dizia o que desejava…Chegavam os textos e escarrapachava tudo… Mas o pior foi depois…Veja: tive que ir ao tribunal por ter transcrito crónica de jornal de grande circulação. Vi-me grego para sair-me bem…”

- “ Agora sou eu que censuro os textos. Faço com severidade. Os matutinos de grande tiragem têm dinheiro e têm advogados… Mas os pequenos? Como posso manter demanda com poderosos? É o fim…”

E enquanto mostrava engenhoca, semelhante a máquina de escrever, que imprimia no zinco letras, rematou:

- “ Agora, se quero viver sossegado, não posso dizer o que quero nem permitir que os colaboradores digam o que desejam. O pequeno jornal vive de assinaturas, e principalmente de anúncios do comércio e indústria local. Tem-se que contar as moedas para comprar papel…Qualquer deslize…qualquer desabafo, pode ser a ruína da empresa.”

Ao lembrar-me desta conversa, com quase quarenta anos, lembrei-me o que disse socialista francês de meados do séc. XlX - citado por Fina d’Armada, cujo nome a autora não se recordava, in “ O Comércio do Porto”, a 21/03/97 - “ Para ele, a única liberdade real que existia (na democracia) era a liberdade do forte oprimir o fraco.”



HUMBERTO PINHO DA SILVA - Porto, Portugal



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terça-feira, 24 de março de 2015

ANÚNCIOS EM SITES E BLOGUES - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA


    

No último quartel do século passado a Net divulgou-se de tal modo, que a maioria da população – mormente a jovem, – passou a possuir computadores ligados à Internet.

Circulam por ela sites e blogues que permitem difusão de cultura e ideias.

Com o aparecimento, mais recente, das redes sociais, permitiu reunir, em rede, indivíduos, que embora residam em diferentes países, encontram-se unidos pela amizade ou troca de opiniões e conceitos.

Tem, todavia, essa estrada de comunicação – como tudo, – um lado negativo: a existência de sites e blogues que incitam a violência e propagam imagens impróprias e textos nefastos.

Deve ser vigiada, para segurança dos cidadãos, mas não deve haver, por parte das autoridades, censura, seja de que género for.

Mas sendo quase gratuita – paga-se a quem a fornece, – a utilização do espaço é gratuito, o que obriga as empresas utilizarem publicidade para cobrirem despesas.

É, portanto, compreensível, que tantos sites e blogues tenham anúncios - desde que não sejam ofensivos aos bons costumes, e mostrados de modo a não prejudicarem a leitura de textos publicados pelos responsáveis.

Acontece, porém, que começa a ser praga, a forma como os anúncios são apresentados: cobrindo fotografias, tapando palavras, desvios forçados, que teimam não obedecer, quando se deseja que desapareçam.

Compreende-se a necessidade de recorrer à publicidade paga, mas esta não deve impedir leitura de textos nem apagar palavras e frases.

Deste modo, a Internet, que foi e é considerada autoestrada da cultura e da informação, torna-se, para quem a usa, ato de paciência e constantes arrelias.

Há locais, em sites e blogues em que a publicidade, sendo bem visível, não incomoda a leitura. Por que não utiliza-los?

Por mim não compraria produto que diariamente impede acesso à leitura de textos.

Espero que com tanta publicidade indesejada e arreliadora, não destruam o interesse deste óptimo meio de informação e cultura.

Já é tempo de se saber colocar anúncios, em sites e blogues, sem despersonaliza-los, nem ofender leitores para bem da informação, da cultura e da liberdade.




HUMBERTO PINHO DA SILVA - Porto, Portugal


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segunda-feira, 16 de março de 2015

BRAGANÇA. AI QUE SAUDADE TENHO !... -Por HUMBERTO PINHO DA SILVA


  

  
A cidade que conservo na memória, não é a de hoje. A minha há muito morreu, mergulhada no passado. Perdida num tempo que já não é.

O Sol que agora bronzeia, patina, doira vetustas ruas, a cidadela, as velhas pedras seculares, é o mesmo; mas as figuras que animaram o antigo e senhorial burgo, há muito desapareceram num passado que passou.

Todavia vivem, ainda dentro de mim…Renascem em devaneios, em nostálgicos sonos, e persistem aconchegarem-se na alma saudosa.

Lembro-me – melhor se fecho os olhos, – a velha ronceira e embaladora automotora encarnada. Passeava preguiçosa pelos estreitos trilhos, rompendo por cerros fragosos e quase nus. O Tua, lá em baixo, de águas cristalinas, debatia-se exasperado, bracejando, entalado por alcantiladas e escarpadas ravinas de terra ocre, que pareciam despenhar-se à mais leve viração.

Vejo nitidamente a simpática estação ferroviária, toda branca, que acolhia os passageiros, ainda tontos e enjoados pelo baloiçar a que eram forçados.

Vejo, também, a antiquíssima Praça da Sé e o pelourinho, toda lajeada a granito, envelhecido pelos anos e pelo musgo. O casarão branco do Montepio; a pequena e animada livraria do Sr. Silva – sempre cumprimentador, sempre respeitoso: o Café Central, onde em calmas tardes, bebia o Martini, e nas frigidíssimas noites de Inverno, quando o vento soprava da Sanabria, e a fofa e alva neve tudo cobria, saboreava o cafezinho e o inseparável bagaço. Bagaço que só os transmontanos sabiam fabricar.

Chego, agora, ao aristocrático Chave D’Ouro, onde “importantes” cavaqueavam freneticamente, e eu, na flor da idade, estudava inglês e lia e relia Camilo. Livros que obtinha na carrinha da Biblioteca Itinerante, que estacionava, em determinado dia, sobre as sólidas e largas lajes, junto à Sé.




Bragança.jpg




Recordo com emoção o pequeno e familiar Café Lisboa. Sentado, junto ao balcão, escutando os entusiásticos comentários do Sr. Manuel, assisti, em directo, à façanha extraordinária da chegada do homem à Lua.

Lembro-me, ainda – como me lembro!, – ter presenciado a inauguração do Flórida. - Café que passou a ser frequentado pela rapaziada elegante da cidade.

Viajando ao sabor da memória pelas ruas empedradas da cidade, que já não existe, chego à “moderna” Avenida do Sabor.

Nela ficava a casa do Dr. Flores – sempre sisudo, de cara cerrada e de coração generoso, – e a do Dr. Pires, mais a numerosa prole…

Nessa avenida conheci graciosa moreninha, de pele macia e doirada. Cabelo castanho que coruscava ao sol, apanhado em farto rabo-de-cavalo. O olhar irradiava ingenuidade e extrema candura.

Há crianças que não devem crescer. São bênçãos. Anjos que amenizam vicissitudes. Essa era uma delas. Conservo na retina o encantador sorriso e o rostinho angelical.

Dos passeios que dava – e não foram poucos, – não posso esquecer a trilha pitoresca que ladeava o manso Fervença – rio que desce pachorrentamente, no forte do Verão, entre agrestes e escabrosos cerros.




Pelourinho e Castelo de Bragança.jpg




Entranhava por vielas e becos da cidadela, e meditando e rezando, alheado de tudo e de todos, sempre trilhando estreitos carreiros, chegava ao Café Floresta; com o rio, de águas translúcidas, aos pés, e o céu azul profundo, como teto. E sempre o murmúrio das águas… e o murmúrio surdo do silêncio…

Ai que saudade tenho das quentes noites de Estio! Logo que empalidecia o céu, em tons de fogo, e o Sol incendiava-se no horizonte, caminhávamos em grupo para o Jardim António Nicolau d’Almeida, que ficava junto ao rio. Ouvia-se música quase toda romântica. Roberto Carlos era o rei. Pares de namorados, enlevados, passeavam de mãos enlaçadas, cochichando doces palavras de amor…

Perdição para moças casadoiras eram os milicianos do BC3. Chegavam a visitá-los – os de maior patente, – no quartel.

O Batalhão resumia-se a duas ou três casernas mal-amanhadas, cercadas de improvisada vedação. Não havia portas. Não fossem sentinelas, circulava-se livremente.

À hora de almoço, a carrinha vinha receber oficiais e sargentos à Praça da Sé, para os levar até ao morro do quartel.

Agora, no crepúsculo da vida, em horas de nostalgia, escutando o murmúrio longínquo da velha Parca, uma onda de saudade invade-me a alma…e magoa, e fere, e dói…

E a voz que brota dentro do peito, pergunta-me: - Onde estão os que se acotovelavam e pontapeavam-se na raivosa ânsia de alcançar o topo do sucesso?

E a mesma voz sussurra-me: - Repousam o eterno sono… Viveram… mas foi como não vivessem... Lutaram… mas é como não tivessem lutado… A morte igualou – vencidos aos vencedores. Reduziu-os a cinza…a nada.

Tudo morre. Tudo desaparece. Tudo é esquecido…. Tudo se transforma em pó…em poalha de nada.




HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal


publicado por solpaz às 14:43
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