segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

O SUCESSO DE UMA MENINA RICA - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA



    
No início do presente século, conheci senhora, viúva, que pertencia a ilustre família lisboeta.

Dedicava-se às Letras. Tinha vários livros publicados, que oferecia aos amigos. Desconheço se alguma vez chegou a colocá-los nas livrarias.

Já bastante doente, mas muito lúcida colaborava no blogue luso-brasileiro “PAZ”, com poemas e textos, bem escritos e bem curiosos.

Nesse tempo, o blogue, era publicado na comunidade do jornal “SOL”; mais tarde, por motivos técnicos, deixou o “SOL” e sofreu algumas alterações.

Mas, não era intenção abordar o blogue luso-brasileiro, mas sim minha querida amiga, já falecida.

Contou-me, a poetisa, que quando era nova, gostava de escrever poesia. Eram poemas incipientes de quem começa a versejar.

O pai, pessoa influente, conhece-os, e para lhe ser agradável, disse-lhe que iria publicá-los.

Escusado é dizer, que a menina ficou radiante, e não se conteve enquanto não contou, a façanha, às amigas mais íntimas.

O que não esperava, é que o pai fosse solicitar o apoio de conhecido escritor, homem, de nome feito, e autor de romances conhecidíssimos.

Para ser simpático ao amigo – amigo rico e influente, – o escritor pediu a jornalistas e homens de letras, seus conhecidos, que escrevessem palavrinhas amáveis, sobre os poemas, se possível na mass-media.

O livro, quando saiu, vinha com abas e contracapa recheadas de pareceres de nomes pomposos. A menina delirou ao ver o livro nos escaparates, e ainda mais, quando a televisão a convidou para curta entrevista.

Outras obras foram entretanto publicadas, muito mais estruturadas e com textos e poemas de melhor quilate, mas não obtiveram o sucesso da primeira.

Dizia-me, então, minha querida amiga: ”falecido meu pai, nunca mais a critica se preocupou com os meus escritos…”

O êxito não estava na obra, mas no dinheiro paterno, e na influência que este tinha.

Moral da história: O mérito não reside no que se diz, mas de quem o diz. Neste caso, na carteira e relacionamentos paternos.





HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal


publicado por solpaz às 15:53
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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

A DESGRAÇA DE SER CADEIRANTE - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA



  
Tenho o feio costume de escutar conversas, quando viajo ou bebo o cafezinho.

Sei que não devo, mas não resisto à tentação. O vicio tem-me sido útil para conhecer o que pensa o semelhante, e muitas vezes encontro matéria para as conversas, que com prazer, travo com o leitor.


Dias destes, vindo de metro da Povoa do Varzim para a Trindade, estacionou a cadeira de rodas, bem ao meu lado, uma jovem, que não teria ainda vinte anos.

Era bonita, de grandes olhos brilhantes e irrequietos. Vinha acompanhada por senhor, que pensei ser o pai. Enganei-me.

Durante o percurso, conversaram animadamente. Dizia a jovem que os inválidos sentem dificuldade em movimentarem-se nas cidades.

Os prédios não possuem rampas, assim como a maioria das casas comerciais, repartições públicas e até as caixas Multibanco são muitas vezes inacessíveis.

- Veja! - Dizia com mágoa a rapariguinha. - São poucos os templos que têm acesso por rampas! Olhe: para a nossa Póvoa. Cresceu, a olhos vistos, nas últimas décadas. A maioria dos prédios não têm mais de vinte anos, todavia raros são os que permitem acesso a cadeirantes.

O senhor sacudia a cabeça em sinal de aprovação. Lamentando que não houvesse esse cuidado, mesmo em prédios com elevadores.

Passei a viagem a refletir sobre o assunto, e conclui: que muitos construtores, engenheiros e arquitetos são de grande insensibilidade.

O que custa criarem rampas de acesso aos prédios? Não se colocam elevadores, para facilitar o acesso aos andares superiores, e rampas, nas entradas das garagens? Então para quê colocar degraus nas entradas?!

Que prédios antigos fossem construídos sem esse requisito, é desculpável - mas não se compreende, - mas que as Câmaras aprovem prédios novos sem rampas de acesso, é inacreditável.

Não será falta de respeito para os que tiveram a infelicidade, por velhice ou acidente ficaram inválidos?

  
HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto,Portugal
  
publicado por solpaz às 21:11

domingo, 23 de novembro de 2014

UMA ANEDOTA VERDADEIRA - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA







Queixava-se, esta tarde, na cafetaria onde costumo merendar, meu amigo Silvério, que já não há gente honesta.

Para confirmar a asserção, ilustrou com o que lhe aconteceu há dias:

Comprara, há anos, apartamento à beira-mar, para férias.
Nessa época, toda a família passava o mês de Agosto, na praia.

Iam de automóvel, que colocava no aparcamento, que comprara.

As crianças esperavam ansiosas a época balnear. Divertiam-se imenso. Por vezes convidavam amiguinhos. A alegria transbordava.

O tempo passou. As crianças cresceram. Chegava Agosto e esquivavam-se: tinham que estudar; havia compromissos inadiáveis; que mais tarde iam com amigos…

Silvério envelheceu. Os filhos casaram. A mulher começou a sofrer de reumatismo…Meu companheiro de menininho foi deixando o carro esquecido na garagem.

Deslocavam-se de comboio. Ficava mais económico. O peso dos anos já não lhe permitia percorrer longas distâncias.

O aparcamento ficou vazio.

Como era ponto estratégico, começou a ser cobiçado por “ aventureiros”, que viram meio de usufruírem aparcamento gratuito.

Certa vez, o filho mais velho foi passar uma semana, na praia. Chegou e estacionou o carro.

Pela manhã encontrou bilhetinho:

Por favor, retire a viatura.
Este lugar é meu.

Desgostoso, Silvério, resolveu alugar o espaço. Colocou no quadro do condomínio, aviso.

Decorrido semanas toca o telemóvel. Era senhora a solicitar autorização para colocar o carro, enquanto não alugasse o espaço. Tinha dois carros e só possuía um aparcamento.

Estupefacto, declarou que o espaço era para arrendar, como certamente sabia, pelo anúncio.

Meses depois, o filho foi com a esposa passar fim-de-semana à casa de praia. Chegou ao entardecer. Estacionou o carro no aparcamento.

Pela manhã, do dia imediato, encontro, na viatura, o seguinte aviso:

Retire o carro deste lugar,
  Ou terei que chamar a polícia.

Parece anedota, mas infelizmente não é.
Assim vai o mundo… e a educação da nossa gente.




HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal

publicado por solpaz às 14:32

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

OS AFECTOS QUE NÂO DEMOS - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA






Pouco a pouco, lentamente, ano a ano, quase sem sentir, avizinha-se o fim da jornada.

Passamos a vida a cuidar – da nossa saúde, da nossa carreira profissional, da satisfação dos nossos desejos; olvidando que para ser feliz é mister cuidar dos outros.

Adiamos sempre para amanhã – que nunca chega, – para conviver, abraçar o amigo, o familiar, porque não temos tempo…ou por comodismo…

E para amanhã ficam os telefonemas, as conversas, as horas de convívio com aqueles que nos querem bem.

De longe a longe, dizemos-lhes: - Havemos de combinar…mas sabemos que o amanhã nunca chegará…

E deste jeito, quantos abraços deixamos de dar? Quantos elogios ficam por fazer?

Mas, em hora inesperada, chega a doença, surgem as limitações e então cogitamos: por que não disse o que ia na alma?! Por que não abracei meus irmãos e a causa que me era querida?!

Adiamos sempre: Amanhã vou fazer isto. Hei-de dedicar-me à música. Quando aposentar-me vou pintar…Servir uma causa humanitária…Sempre para amanhã…Sempre para o futuro.

Vivemos dentro de um sonho. Só muito tarde acordamos e, estupefacto, verificamos que não vivemos…As oportunidades e a saúde, passaram…e o tempo não volta.

Lamentamos, então, os anos perdidos. A juventude que passou… e o que passou…não passará mais…

Já não vamos a tempo de dizer: quanto amavamos a nossa mãe, a nossa irmã, aqueles que connosco repartiram a vida – os amigos, os colegas de trabalho, os companheiros que cruzaram com a nossa vida.

Então lamentamos, os abraços que não demos. Os beijos que deixamos de dar. Os afectos que tornariam felizes os que aguardavam os nossos carinhos….Mas é tarde…Muito tarde…Porque o tempo é como as águas do rio, nunca passam pelo mesmo lugar.




HUMBERTO PINHO DA SILVA - Porto, Portugal


publicado por solpaz às 10:39
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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

COMO SE DISTRIBUEM OS "OSSOS" - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA







Estando a almoçar com beirões, na Casa da Beira, um dos presentes, contou, que o filho fora preterido de certo lugar, a que concorrera.

Admirava-se, o comensal, que o cargo de chefia fosse entregue a trabalhador indisciplinado, arrogante, e nada zeloso, e não ao filho, que sempre fora pontual, dedicado e respeitador.

Ao ouvir isso, lembrei-me da pergunta que vassalo de D. Afonso de Aragão, fez ao Rei, ao verificar que Sua Majestade era sempre generoso para quem conspirava pelos corredores do palácio:

- Por que não lhes nega benesses e ainda os recebe com deferência?!

Ao que o Rei, respondeu, sorrindo:

- Aos cachorros, dá-se-lhes ossos, para que não mordam, e permaneçam calados…

Assim fazem muitos dirigentes e líderes políticos, para se manterem nos lugares que ocupam.

Muitas vezes interrogo-me: os cargos são dados pelo mérito, ou por medo?

Se o trabalhador prevarica, e é “ revolucionário” é reaprendido moderadamente ou relevada a falta; mas se é bem comportado, respeitador e educado, o castigo é severo – para dar exemplo…

Não há dirigente que confirme o que digo; mas, meus poucos cabelos brancos, são testemunha dessa veracidade.

Por isso, é que os trabalhadores mantêm-se no sindicato e partidos políticos, para serem nomeados e promovidos mais rapidamente, sabendo que os superiores, dão, em regra, mais valor ao cartão partidário ou sindical, que à dedicação de décadas à empresa

E sabem por quê?

Porque muitos chefes, são-no, graças à cor partidária e à atividade sindical que exerceram.

Quem quer estar sossegado e seguro no cargo que exerce, tem que usar o método de D. Afonso de Aragão:

Dar “ossos” àqueles que temem, mesmo sabendo, em consciência, que o “osso” devia ser entregue ao “cachorrinho” educado e leal.




HUMBERTO PINHO DA SILVA - Porto, Portugal
publicado por solpaz às 10:39

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

As rugas - Por João Bosco Leal (*)



As rugas

Tornou-se comum entre os brasileiros utilizar muitos dos recursos atualmente disponibilizados pela medicina para retardar seu envelhecimento. Vitaminas orais ou injetáveis, suplementos minerais e os mais diversos tipos de cirurgias são utilizadas com essa finalidade.

Em busca da beleza física, os salões de beleza estão repletos de homens fazendo as unhas, limpeza de pele, depilação, tratamentos capilares e outros soluções antes só utilizadas pelas mulheres.

Caminhadas, corridas e academias de musculação acompanhada por um Personal trainer já fazem parte do quotidiano da população que tem tempo e pode pagar por isso.

Nas clínicas de cirurgia plásticas são encontradas pessoas em busca da correção de detalhes mínimos em seus físicos, como rugas nos cantos dos olhos e testa, as "papadas" abaixo do queixo, narizes ou orelhas que não as agradam, preenchimentos labiais e de outras partes do rosto, "esticadas" na pele facial já flácida, implantes capilares e de silicones nas mamas, nádegas e muitas outras possibilidades oferecidas para a "escultura" dos corpos.

Normalmente elas sofrem por não aceitar as leis da natureza e terminam por espalhar esse sofrimento para todos que os circundam. Entretanto, mesmo com todas essas possibilidades, querer reconquistar a memória ágil, a forma e a agilidade física ou a barriguinha que possuía na plenitude da juventude, seria algo de preço extremamente elevado e muitas vezes, além dos riscos, expõe a pessoa a resultados inversos ao desejado, transformando-a em uma caricatura de si mesma.

A natureza jamais permitirá que verdadeiramente retrocedamos vinte ou trinta anos em uma mesa cirúrgica e essa é a graça da vida. Passamos por diversas fases e em cada uma crescemos, aprendemos, acertamos, erramos, amadurecemos e, maduros, sabemos o que nunca conseguiríamos saber décadas antes.

Ocorre uma troca, a juventude passa, mas o conhecimento se avoluma, permitindo uma vida com mais sabedoria, harmonia com o próximo, menos desgastes desnecessários, aprendemos a admirar e aproveitar mais cada detalhe de um novo raiar ou pôr do sol, que a natureza nos disponibiliza diariamente e que décadas atrás não eram sequer notados.

Muitas coisas do passado são hoje impraticáveis e é bom que assim seja, pois com a maturidade percebemos que no passado falamos ou fizemos coisas que hoje não repetiríamos, corremos riscos desnecessários, andamos depressa demais e que, muitas vezes, poderíamos ter nos machucado e até mesmo morrido.

A lei da gravidade, a menor agilidade, as diferenças nos prazeres físicos são, psicologicamente, transformadas em sofrimentos, mágoas, tristezas, quando poderiam ser encaradas de forma mais sutil, se entendidas simplesmente como alterações e não como fim, pois nada terminou, só mudaram os padrões de beleza, o modo e o tempo que se leva em busca do prazer, o que inclusive pode ser encarado como uma grande vantagem. 

Todos possuem um arquivo mental, onde guardam suas histórias, os erros e acertos, as perdas e ganhos, os fracassos e sucessos que agora os ensinam a buscar uma vida melhor, com mais qualidade, sem angústias desnecessárias, que nada resolverão.

As rugas são os sinais de como aprendemos a esquecer o inatingível e a só buscar o possível.
João Bosco Leal*     www.joaoboscoleal.com.br

domingo, 5 de outubro de 2014

AS ÚLTIMAS AVOZINHAS - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA






Durante as férias de Verão, resolvi visitar o Alto-Minho. Aproveitei o passeio para conviver com velha amiga, viúva de médico, e mãe de três filhos.

Recebeu-me ao portão do antigo solar, e levou-me para escadaria de pedra, que dava acesso a ampla sala, cujas janelas de guilhotina, encontravam-se cobertas de pesados reposteiros encarnados.

Esta velha amiga, pouco mais idosa do que eu, vive sozinha, na companhia de duas empregadas. Os filhos há muito abalaram para a capital, onde exercem profissões liberais.

Durante largas horas, conversámos sobre acontecimentos, em que ambos fomos protagonistas, e que nos deixaram saudosas recordações.

Contou-me que semanas antes, tivera grande alegria, seguida de desilusão, que a deixou muito contristada.

A neta, telefonou-lhe para lhe dizer que vinha passar uns dias a sua casa.

- Saltou-me o coração de contentamento, quando ouvi a sineta do portão tocar – confessou-me.

A netinha, logo que chegou, foi a correr para o quarto. Depositou a mala; guardou os pertences; envergou vestido mais ligeiro; e veio merendar.

- Estou tão feliz! … - Disse-lhe a avó.

Com a natural sinceridade de adolescente do século XXI, prontamente respondeu:

- Vim de castigo! O papá disse-me: “ Como ficaste reprovada, vais de castigo para casa da avó…É uma maçada!...Bem gostaria de ficar em Carcavelos, com meus amigos…”

A velha e querida amiga, ao contar-me isso, tinha lágrimas escorrendo pelo rosto.

No meu tempo de menino, a avó era imprescindível: cuidava das crianças; ia busca-las à escola; dava-lhe banho; e muitas vezes estudava com elas, para facilitar a assimilação da matéria.

A avozinha era o membro da família mais querido. Os netinhos adoravam-na. Com a desagregação da família – difusão do divórcio e a partida dos filhos para os grandes centros, – os avós passaram a ser estorvos.

O lugar dos idosos deixou de ser junto dos filhos e netos, e passou a ser: nos lares, internados, muitas vezes, à força.

Ficaram condenados a viverem sozinhos ou em “ armazéns”, onde convivem com doentes, dormem com estranhos, e obrigados a permanecerem longas horas, embrulhados em mantas, diante de aparelhos de TV.

Felizmente, a maioria dos lares, já não recorrem a “drogas”, para mantê-los sossegados, como acontecia antigamente.

A senhora que visitei, graças aos bens que possui, não necessita de se internar numa residencial, mas nem todos os avós têm igual sorte.

O episódio que contei é elucidativo da forma como os adolescentes são educados:

O pai castiga a filha e envia-a para a avó, como se sua casa fosse prisão.

A neta, sem piedade, declara à avó – que a recebe de braços abertos, – que preferia estar com os amigos em Carcavelos.

Assim vai a juventude…e a educação que recebe.



HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto,Portugal

publicado por solpaz às 10:44